Portanto, se queremos dar lugar ao chamamento de Cristo, que bem longe de
nós esteja toda arrogância, toda complacência pessoal. Aquela nasce da estulta convicção
de justiça pessoal, quando o homem pensa ter algo de cujo mérito possa
recomendar-se junto a Deus; esta, contudo, pode existir sem qualquer convicção de
obras. Pois muitos pecadores, inebriados da doçura de seus vícios, não cogitam do
juízo de Deus e jazem adormecidos como presa de um torpor, não aspiram à misericórdia
que lhes é oferecida.
Com efeito, tal torpor não deve ser menos sacudido do que a necessidade de alijar-se toda e qualquer confiança de nós mesmos, para que, desimpedidos, nos
apressemos rumo a Cristo, a fim de que, vazios e jejunos, possamos fartar-nos de
suas coisas boas. Pois jamais confiaremos nele suficientemente, a menos que, suspeitando
profundamente de nós mesmos; jamais alcançaremos suficientemente em
nós o ânimo para com ele, a menos que antes nos sintamos abatidos em nós mesmos;
jamais nos consolaremos suficientemente nele, a menos que em nós mesmos nos
sintamos desolados. Portanto, sendo a confiança pessoal inteiramente alijada, de
fato apoiados unicamente na certeza de sua bondade, estamos capacitados para apreender
e obter a graça de Deus, quando, como diz Agostinho, esquecidos de nossos
méritos, abraçamos os dons de Cristo, visto que, se ele buscasse em nós méritos
pessoais, não viríamos a seus dons. Com quem concordemente faz coro Bernardo,
comparando os presunçosos a servos desleais, porque contra toda razão retêm para
si o louvor da graça, quando a mesma nem mesmo passa por eles; como se uma
parede se vangloriasse de ter sido a causa do raio do sol, que ela recebe através de
uma janela. Para não nos determos aqui mais demoradamente, retenhamos esta regra, que
embora seja breve, é geral e precisa: tem de estar preparado para participar dos
frutos da misericórdia divina aquele que se esvaziou inteiramente de si próprio, não
digo de justiça (que nenhuma existe), mas de vã e fútil semelhança de justiça, visto
que cada um opõe tanto empecilho à beneficência de Deus, quanto mais se arrima
em si mesmo.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32