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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A ARROGÂNCIA E A COMPLACÊNCIA PESSOAL IMPEDEM QUE CRISTO ATENDA O PECADOR EM INTEIREZA DE FÉ E HUMILDE DEPENDÊNCIA

Portanto, se queremos dar lugar ao chamamento de Cristo, que bem longe de nós esteja toda arrogância, toda complacência pessoal. Aquela nasce da estulta convicção de justiça pessoal, quando o homem pensa ter algo de cujo mérito possa recomendar-se junto a Deus; esta, contudo, pode existir sem qualquer convicção de obras. Pois muitos pecadores, inebriados da doçura de seus vícios, não cogitam do juízo de Deus e jazem adormecidos como presa de um torpor, não aspiram à misericórdia que lhes é oferecida. Com efeito, tal torpor não deve ser menos sacudido do que a necessidade de alijar-se toda e qualquer confiança de nós mesmos, para que, desimpedidos, nos apressemos rumo a Cristo, a fim de que, vazios e jejunos, possamos fartar-nos de suas coisas boas. Pois jamais confiaremos nele suficientemente, a menos que, suspeitando profundamente de nós mesmos; jamais alcançaremos suficientemente em nós o ânimo para com ele, a menos que antes nos sintamos abatidos em nós mesmos; jamais nos consolaremos suficientemente nele, a menos que em nós mesmos nos sintamos desolados. Portanto, sendo a confiança pessoal inteiramente alijada, de fato apoiados unicamente na certeza de sua bondade, estamos capacitados para apreender e obter a graça de Deus, quando, como diz Agostinho, esquecidos de nossos méritos, abraçamos os dons de Cristo, visto que, se ele buscasse em nós méritos pessoais, não viríamos a seus dons. Com quem concordemente faz coro Bernardo, comparando os presunçosos a servos desleais, porque contra toda razão retêm para si o louvor da graça, quando a mesma nem mesmo passa por eles; como se uma parede se vangloriasse de ter sido a causa do raio do sol, que ela recebe através de uma janela. Para não nos determos aqui mais demoradamente, retenhamos esta regra, que embora seja breve, é geral e precisa: tem de estar preparado para participar dos frutos da misericórdia divina aquele que se esvaziou inteiramente de si próprio, não digo de justiça (que nenhuma existe), mas de vã e fútil semelhança de justiça, visto que cada um opõe tanto empecilho à beneficência de Deus, quanto mais se arrima em si mesmo.

João Calvino