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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

CRISTO VEIO AO MUNDO CHAMAR PECADORES, NÃO JUSTOS

E não contente com palavras, o excelentíssimo Mestre nosrepresentou em uma parábola [Lc 18.9-14], como em um quadro, a imagem da legítima humildade. Pois apresenta um publicano que, posto de pé ao longe, nem ousando elevar os olhos para o céu, ora com muito pesar: “Senhor, sê propício a mim, um pecador” [Lc 18.13]. Não pensemos que esses são sinais de modéstia fingida, o qual nem ousa contemplar o céu, nem achegar-se mais perto, senão que, batendo no peito, se confessa pecador; pelo contrário, reconheçamos que são testemunhos de um sentimento interior. Em contraposição, apresenta um fariseu que rende graças a Deus por não fazer parte do comum dos homens, ou um ladrão, ou injusto, ou adúltero, porque jejuava duas vezes na semana e dava o dízimo de tudo quanto possuía [Lc 18.11, 12]. Em confissão franca, ele reconhece que a justiça que possui é um dom de Deus, porém, visto que está confiante de que é justo, afasta-se, ingrato e detestável, da face de Deus. O publicano é justificado mercê do reconhecimento de sua iniqüidade [Lc 18.14]. Daqui é possível ver quão grande diante do Senhor é a graça de nossa humilhação; tanta que, se nosso coração não se abre para receber sua misericórdia, não estará inteiramente vazio de todo senso de dignidade pessoal. Quando, porém, esse senso de valor pessoal está ocupado, ele fecha a entrada a essa graça. Ora, para que ninguém o pusesse em dúvida, Cristo foi enviado pelo Pai com este mandato: proclamar boas-novas aos pobres, curar os quebrantadosde coração, proclamar libertação aos cativos, abertura de prisão aos encarcerados, consolar aos que pranteiam; em lugar de cinza lhes desse glória, em lugar de luto, óleo, em lugar de espírito de tristeza, manto de louvor [Is 61.1-3]. Segundo este mandato, somente aos que lamentam exaustivamente e se sentem sobrecarregados ele convida a participarem de sua beneficência [Mt 11.28]. E, em outro lugar: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores” [Mt 9.13].

João Calvino