E não contente com palavras, o excelentíssimo Mestre nosrepresentou em uma
parábola [Lc 18.9-14], como em um quadro, a imagem da legítima humildade. Pois
apresenta um publicano que, posto de pé ao longe, nem ousando elevar os olhos
para o céu, ora com muito pesar: “Senhor, sê propício a mim, um pecador” [Lc
18.13]. Não pensemos que esses são sinais de modéstia fingida, o qual nem ousa
contemplar o céu, nem achegar-se mais perto, senão que, batendo no peito, se confessa
pecador; pelo contrário, reconheçamos que são testemunhos de um sentimento
interior. Em contraposição, apresenta um fariseu que rende graças a Deus por não
fazer parte do comum dos homens, ou um ladrão, ou injusto, ou adúltero, porque
jejuava duas vezes na semana e dava o dízimo de tudo quanto possuía [Lc 18.11,
12]. Em confissão franca, ele reconhece que a justiça que possui é um dom de Deus,
porém, visto que está confiante de que é justo, afasta-se, ingrato e detestável, da
face de Deus. O publicano é justificado mercê do reconhecimento de sua iniqüidade
[Lc 18.14].
Daqui é possível ver quão grande diante do Senhor é a graça de nossa humilhação;
tanta que, se nosso coração não se abre para receber sua misericórdia, não
estará inteiramente vazio de todo senso de dignidade pessoal. Quando, porém, esse
senso de valor pessoal está ocupado, ele fecha a entrada a essa graça. Ora, para que
ninguém o pusesse em dúvida, Cristo foi enviado pelo Pai com este mandato: proclamar
boas-novas aos pobres, curar os quebrantadosde coração, proclamar libertação
aos cativos, abertura de prisão aos encarcerados, consolar aos que pranteiam; em
lugar de cinza lhes desse glória, em lugar de luto, óleo, em lugar de espírito de
tristeza, manto de louvor [Is 61.1-3]. Segundo este mandato, somente aos que lamentam
exaustivamente e se sentem sobrecarregados ele convida a participarem de
sua beneficência [Mt 11.28]. E, em outro lugar: “Não vim chamar os justos, mas os
pecadores” [Mt 9.13].
João Calvino