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domingo, 9 de setembro de 2018

A CRUZ DAS TRIBULAÇÕES E NOSSOS FRACASSOS NOS LEVA A RECONHECER NOSSA FRAGILIDADE E A CONFIAR SOMENTE NA GRAÇA DE DEUS

Acresce que nosso Senhor não tinha nenhuma necessidade de tomar sobre si a cruz, a não ser para atestar e provar sua obediência ao Pai; a nós, porém, por muitas razões se faz indispensável passar a vida debaixo de uma cruz permanente. Acima de tudo, como somos sobremodo propensos, de natureza, salvo se nossa fraqueza nos tenha sido demonstrada ante nossos olhos, que tudo se atribui à nossa carne, facilmente estimamos nossa própria capacidade acima da justa medida; nem duvidamos que, não nos importa o que nos sobrevenha, ela não se quebranta e é insuperável contra todas as dificuldades. Daísomos transportados à confiança estulta e vã da carne, estribados na qual então nos inflamos insolentemente de orgulho em relação ao próprio Deus, como se nossos próprios recursos nos fossem suficientes sem sua graça. O melhor meio de que ele pode servir-se para abater essa nossa arrogância e demonstrar-nos palpavelmente o quanto nos pertence a fragilidade e a debilidade.136 Portanto, Deus nos aflige ou com ignomínia, ou com pobreza, ou com perda de parentes, ou com doença, ou com outras calamidades, às quais, no que nos diz respeito, longe de poder sustentar-nos, logo sucumbimos. Assim quebrantados, aprendemos a invocar-lhe o poder, o qual tão-somente nos faz manter-nos firmes sob o peso das aflições. Contudo, até mesmo as pessoas mais santas, por mais que reconheçam que se mantêm firmes pela graça de Deus, não por suas próprias forças, no entanto estão seguras de sua fortaleza e constância mais do que o justo, a não ser que, pela provação da cruz, ele os conduza a um conhecimento mais profundo de si mesmos. Também a Davi esta complacência se insinuou sorrateira: “Eu disse em minha tranqüilidade: não serei perpetuamente abalado; Senhor, em teu beneplácito infundiras estabilidade ao meu monte; escondeste tua face, fui fortemente conturbado [Sl 30.6, 7]. Ora, Davi está confessando que, na prosperidade, seus sentidos foram embotados de torpor, de sorte que, preterida a graça de Deus, da qual deveria depender, em si se arrimara, ao ponto de prometer a si estabilidade perene. Se isso aconteceu a um Profeta tão insigne, quem de nós não tema ao ponto de precaver-se?
Portanto, aí está como os santos, advertidos de sua debilidade com tais experiências, tiram proveito na humildade para despojar-se da indevida confiança na carne e acolher-se à graça de Deus. Com efeito, quando aí tenham se acolhido, experimentam a presença do divino poder no qual encontram mais que suficiente proteção.

João Calvino