A VIDA DO CRISTÃO É UMA DURA CAMINHADA, NA QUAL, IMITANDO A CRISTO
E SOB SUA GLÓRIA, A CRUZ DAS PROVAÇÕES E EMBATES É CARREGADA
COM PACIÊNCIA
Com efeito, importa à mente pia subir ainda mais alto, isto é, ao ponto a que Cristo
chama seus discípulos, a saber, que cada um tome sua cruz [Mt 16.24; Mc 8.33; Lc
9.23]. Pois a quantos e quaisquer o Senhor adotou e dignou da participação do que
é seu, devem esses preparar-se para uma vida dura, laboriosa, agitada e repleta de
muitas e variadas espécies de males. Assim, para que aufira segura prova quanto aos
seus, a vontade do Pai celestial é acossá-los a tal medida. Tendo principiado de
Cristo, seu Primogênito, ele segue este método em relação a todos os seus filhos.
Ora, ainda que fosse ele o Filho amado acima dos demais e em quem se comprazia
a alma do Pai [Mt 3.17; 17.5], no entanto, vemos quão indulgente e brandamente
não foi ele tratado, de modo que, verdadeiramente, se possa dizer que, por quanto
tempo habitou a terra, não só foi assenhoreado por cruz perpétua, mas até mesmo
toda sua vida outra coisa não foi senão uma espécie de cruz perpétua. O Apóstolo
assinala a causa: que lhe foi necessário “aprender a obediência das coisas que sofreu”
[Hb 5.8].
Portanto, por que nos eximiríamos dessa mesma condição a que foi necessário
que Cristo nosso Cabeça, se submetesse, principalmente quando ele se lhe submeteu
por nossa causa, para que em si mesmo nos exibisse o modelo da paciência? Por
esta razão, o Apóstolo ensina que este fim foi destinado a todos os filhos de Deus, a
saber, que se fizessem conformes a ele [Rm 8.29]. Donde também nos provém consolação
insigne: nas coisas árduas e difíceis, que são consideradas adversas e más,
compartilhamos dos sofrimentos de Cristo, de sorte que, como ele do labirinto de
todos os males entrou na glória celeste, assim, por entre variadas tribulações, sejamos
conduzidos à mesma glória [At 14.22], pois assim Paulo mesmo fala em outro
lugar [Fp 3.10, 11]: que “enquanto aprendemos a comunhão de suas aflições, apreendemos,
ao mesmo tempo, o poder de sua ressurreição”; e “enquanto nos fazemos
conformes à sua morte, somos assim preparados para a participação de sua gloriosa
ressurreição”. Quanto isto nos pode valer para suavizar toda a agrura da cruz, porque quanto mais afligidos somos por coisas adversas, tanto mais seguramente nos é
solidificada a associação com Cristo, mercê de cuja comunhão os próprios sofrimentos
não só se nos fazem benditos, mas também trazem muita ajuda para nos
promover a salvação!
João Calvino