Total de visualizações de página

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

CONSIDERAÇÃO FINAL EM REFUTAÇÃO À TESE DE OSIANDRO: A JUSTIFICAÇÃO É OBRA DO MEDIADOR, NÃO SÓ DE SUA NATUREZA DIVINA

Contudo, os leitores devem estar prevenidos para que prestem cuidadosamente atenção ao mistério do qual Osiandro se jacta de não querer ocultar deles. Ora, depois que, por longo tempo e prolixamente, ele contende que conseguimos favor diante de Deus não só pela imputação da justiça de Cristo, porquanto lhe seria impossível ter por justos os que não o são (estou usando suas próprias palavras), afinal conclui que Cristo nos foi dado para justiça, não com respeito à natureza humana, mas à divina; e visto que esta justiça não pode ser encontrada senão na pessoa do Mediador, contudo ela é justiça não do homem, mas de Deus. Agora ele já não está fiando seu cordel com as duas justiças; contudo, obviamente alija da natureza humana de Cristo o ofício de justificar. Vale, porém, a pena tomar conhecimento da argumentação que ele apresenta. Ele sustenta que nesta mesma passagem [1Co 1.30] lemos que Cristo foi constituído por sabedoria, o que não compete senão à Palavra eterna. Logo, a seu ver, Cristo é nossa justiça não como homem. Replico que o Filho Unigênito de Deus na verdade foi sempre sua eterna sabedoria, mas em Paulo esse título lhe é atribuído de modo diverso, visto que “nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” [Cl 2.3]. Portanto, o que ele tinha junto ao Pai, no-lo manifestou; e assim aquilo que Paulo diz não se refere à essência do Filho de Deus, mas ao nosso modo de ser e se aplica apropriadamente à natureza humana de Cristo; porquanto, visto que antes de revestir-se da carne, a luz brilhava nas trevas [Jo 1.5]; contudo era uma luz opaca até que o próprio Cristo se apresentou em natureza de homem, o Sol da Justiça [Ml 4.2], o qual, por isso, se chama a Luz do Mundo [Jo 8.12]. Ele ainda objeta estultamente dizendo que o poder de justificar paira muito acima da capacidade, tanto dos anjos quanto dos homens, visto que isso depende não da dignidade de qualquer criatura, mas da ordenança de Deus. Se aos anjos agrada fazer satisfação a Deus, nada conseguirão, pois não foram para isso destinados, mas isso foi peculiar ao homem Cristo, o qual “foi sujeito à lei para que nos redimisse da maldição da lei” [Gl 3.13]. Aos que negam que Cristo é nossa justiça segundo a natureza divina, Osiandro também os acusa injustamente; afirma que deixam a Cristo apenas uma parte, e, o que é pior, os acusa de fazerem dois deuses, porquanto, embora confessem que Deus habita em nós, proclamam, no entanto, que não é pela justiça de Deus que somos justos. Ora, nem se chamarmos Cristo o autor da vida, visto que sofreu a morte “para que destruísse aquele que tinha o império da morte” [Hb 2.14], ainda assim estamos defraudando desta honra Aquele que é todo indiviso, como Deus manifesto na carne; pelo contrário, estamos apenas distinguindo como a justiça de Deus nos chega, para que a fruamos; no que Osiandro cai em erro por demais crasso. Com efeito, não negamos que o que nos é dado manifestamente em Cristo promana da graça e virtude secretas de Deus; tampouco contendemos que a justiça que Cristo nos confere não seja a justiça de Deus, a qual de fato procede dele. Mas, isto sustentamos firmemente: que nossa justiça e vida estão na morte e ressurreição de Cristo.
Deixo de considerar esse amontoado de passagens, que é de causar vergonha, com que, sem discriminação e até mesmo sem senso comum, ele onerou os leitores no afã de provar que sempre que na Escritura se faz menção de justiça, ela deve ser entendida como justiça essencial; como, por exemplo, quandoDaviimplora a justiça de Deus para lhe fornecer ajuda, embora faça isso cem vezes, Osiandro não hesita em corromper tão grande número de passagens. Também o que ele objeta nada tem de sólido, a saber, que a justiça é própria e corretamente definida como aquela em virtude da qual somos movidos a agir retamente, mas de fato “Deus opera em nós não apenas o querer, como também o realizar” [Fp 2.13]. Ora, não negamos que por meio de seu Espírito Deus nos reforme à santidade e retidão de vida, mas é preciso ver, primeiro, se porventura ele faz isso pessoal e imediatamente, ou de fato através da mão de seu Filho, em quem depôs toda a plenitude do Espírito Santo, para que, por sua magnificência, houvesse de suprir a indigência de seus membros. Além disso, ainda que a justiça nos advenha da fonte secreta da divindade, no entanto não se segue que Cristo, que se santificou na carne por nossa causa [Jo 17.19], seja nossa justiça em conformidade com a natureza divina. Não menos frívolo é o que acrescenta, ou, seja, que o próprio Cristo foi justo em virtude da justiça divina; porquanto, a não ser que a vontade do Pai o houvesse impulsionado, certamente ele não teria desempenhado as funções a si atribuídas. Ora, visto que foi dito em outro lugar que todos os méritos do próprio Cristo promanam do mero beneplácito de Deus, entretanto isso nada acrescenta ao aspecto com que Osiandro fascina seus próprios olhos e os dos simplórios. Porque, quem serão insensato que conclua com ele que, visto que Deus é a fonte e o princípio de nossa justiça, por isso somos essencialmente justos, e que a essência da justiça de Deus habita em nós?159 Isaías [59.17] diz que, ao redimir a Igreja, “Deus se vestiu de sua justiça como de uma couraça.” Porventura, isso se deu para que se despojasse a Cristo das armas que lhe havia dado, de modo que não viesse a ser o perfeito Redentor? Com efeito, o Profeta não quis dizer outra coisa, senão que, para redimir-nos, Deus nada tomara de empréstimo fora de si mesmo, nem foi ajudado por qualquer auxílio. Paulo ratificou isso sucintamente, em outras palavras: que Deus nos deu a salvação para a manifestação de sua justiça [Rm 3.25]. Isso, porém, de modo algum derruba o que ensina em outro lugar, a saber, que “somos justos pela obediência de um homem” [Rm 5.19]. Enfim, todo aquele que envolve uma dupla justiça, de sorte que as míseras almas não descansem na pura e única misericórdia de Deus, está coroando a Cristo com escárnio de espinhos entrelaçados.

João Calvino