Contudo, os leitores devem estar prevenidos para que prestem cuidadosamente
atenção ao mistério do qual Osiandro se jacta de não querer ocultar deles. Ora, depois que, por longo tempo e prolixamente, ele contende que conseguimos favor
diante de Deus não só pela imputação da justiça de Cristo, porquanto lhe seria impossível
ter por justos os que não o são (estou usando suas próprias palavras), afinal
conclui que Cristo nos foi dado para justiça, não com respeito à natureza humana,
mas à divina; e visto que esta justiça não pode ser encontrada senão na pessoa do
Mediador, contudo ela é justiça não do homem, mas de Deus.
Agora ele já não está fiando seu cordel com as duas justiças; contudo, obviamente
alija da natureza humana de Cristo o ofício de justificar. Vale, porém, a pena tomar
conhecimento da argumentação que ele apresenta. Ele sustenta que nesta mesma
passagem [1Co 1.30] lemos que Cristo foi constituído por sabedoria, o que não
compete senão à Palavra eterna. Logo, a seu ver, Cristo é nossa justiça não como
homem. Replico que o Filho Unigênito de Deus na verdade foi sempre sua eterna
sabedoria, mas em Paulo esse título lhe é atribuído de modo diverso, visto que “nele
estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” [Cl 2.3]. Portanto,
o que ele tinha junto ao Pai, no-lo manifestou; e assim aquilo que Paulo diz
não se refere à essência do Filho de Deus, mas ao nosso modo de ser e se aplica
apropriadamente à natureza humana de Cristo; porquanto, visto que antes de revestir-se
da carne, a luz brilhava nas trevas [Jo 1.5]; contudo era uma luz opaca até que
o próprio Cristo se apresentou em natureza de homem, o Sol da Justiça [Ml 4.2], o
qual, por isso, se chama a Luz do Mundo [Jo 8.12]. Ele ainda objeta estultamente
dizendo que o poder de justificar paira muito acima da capacidade, tanto dos anjos
quanto dos homens, visto que isso depende não da dignidade de qualquer criatura,
mas da ordenança de Deus. Se aos anjos agrada fazer satisfação a Deus, nada conseguirão,
pois não foram para isso destinados, mas isso foi peculiar ao homem Cristo,
o qual “foi sujeito à lei para que nos redimisse da maldição da lei” [Gl 3.13].
Aos que negam que Cristo é nossa justiça segundo a natureza divina, Osiandro
também os acusa injustamente; afirma que deixam a Cristo apenas uma parte, e, o
que é pior, os acusa de fazerem dois deuses, porquanto, embora confessem que
Deus habita em nós, proclamam, no entanto, que não é pela justiça de Deus que
somos justos. Ora, nem se chamarmos Cristo o autor da vida, visto que sofreu a
morte “para que destruísse aquele que tinha o império da morte” [Hb 2.14], ainda
assim estamos defraudando desta honra Aquele que é todo indiviso, como Deus
manifesto na carne; pelo contrário, estamos apenas distinguindo como a justiça de
Deus nos chega, para que a fruamos; no que Osiandro cai em erro por demais crasso.
Com efeito, não negamos que o que nos é dado manifestamente em Cristo promana
da graça e virtude secretas de Deus; tampouco contendemos que a justiça que
Cristo nos confere não seja a justiça de Deus, a qual de fato procede dele. Mas, isto
sustentamos firmemente: que nossa justiça e vida estão na morte e ressurreição de
Cristo.
Deixo de considerar esse amontoado de passagens, que é de causar vergonha,
com que, sem discriminação e até mesmo sem senso comum, ele onerou os leitores
no afã de provar que sempre que na Escritura se faz menção de justiça, ela deve ser
entendida como justiça essencial; como, por exemplo, quandoDaviimplora a justiça
de Deus para lhe fornecer ajuda, embora faça isso cem vezes, Osiandro não
hesita em corromper tão grande número de passagens.
Também o que ele objeta nada tem de sólido, a saber, que a justiça é própria e
corretamente definida como aquela em virtude da qual somos movidos a agir retamente,
mas de fato “Deus opera em nós não apenas o querer, como também o
realizar” [Fp 2.13]. Ora, não negamos que por meio de seu Espírito Deus nos reforme
à santidade e retidão de vida, mas é preciso ver, primeiro, se porventura ele faz
isso pessoal e imediatamente, ou de fato através da mão de seu Filho, em quem
depôs toda a plenitude do Espírito Santo, para que, por sua magnificência, houvesse
de suprir a indigência de seus membros. Além disso, ainda que a justiça nos advenha
da fonte secreta da divindade, no entanto não se segue que Cristo, que se santificou
na carne por nossa causa [Jo 17.19], seja nossa justiça em conformidade com
a natureza divina.
Não menos frívolo é o que acrescenta, ou, seja, que o próprio Cristo foi justo em
virtude da justiça divina; porquanto, a não ser que a vontade do Pai o houvesse
impulsionado, certamente ele não teria desempenhado as funções a si atribuídas.
Ora, visto que foi dito em outro lugar que todos os méritos do próprio Cristo promanam
do mero beneplácito de Deus, entretanto isso nada acrescenta ao aspecto com
que Osiandro fascina seus próprios olhos e os dos simplórios. Porque, quem serão
insensato que conclua com ele que, visto que Deus é a fonte e o princípio de nossa
justiça, por isso somos essencialmente justos, e que a essência da justiça de Deus
habita em nós?159
Isaías [59.17] diz que, ao redimir a Igreja, “Deus se vestiu de sua justiça como
de uma couraça.” Porventura, isso se deu para que se despojasse a Cristo das armas
que lhe havia dado, de modo que não viesse a ser o perfeito Redentor? Com efeito,
o Profeta não quis dizer outra coisa, senão que, para redimir-nos, Deus nada tomara
de empréstimo fora de si mesmo, nem foi ajudado por qualquer auxílio. Paulo ratificou
isso sucintamente, em outras palavras: que Deus nos deu a salvação para a
manifestação de sua justiça [Rm 3.25]. Isso, porém, de modo algum derruba o que
ensina em outro lugar, a saber, que “somos justos pela obediência de um homem”
[Rm 5.19]. Enfim, todo aquele que envolve uma dupla justiça, de sorte que as míseras
almas não descansem na pura e única misericórdia de Deus, está coroando a
Cristo com escárnio de espinhos entrelaçados.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32