O leitor deve já perceber com que gênero de equanimidade e justiça cavilam
hoje os sofistas contra nossa doutrina, quando dizemos que a homem é justificado
tão-somente pela fé[Rm 3.28]. Não ousam negar que o homem é justificado pela fé,
uma vez que essa afirmação é reiterada na Escritura com tanta freqüência. Mas,
visto que em parte alguma o termo somente é expresso, não admitem que se faça tal
afirmação. Porventura é assim mesmo? Mas, que replicarão a estas palavras de Paulo onde ele contende que, a não ser que essa justiça seja gratuita, não pode ser
justiça da fé?[Rm 4.2-5]. Como é possível que com obras o que é gracioso se enquadre?
Além disso, com que astúcias descartam o que Paulo diz em outro lugar [Rm
1.17]: que a justiça de Deus se manifesta no evangelho? Se a justiça se manifesta no
evangelho, certamente que ela não é mutilada, nem pela metade; ao contrário, aí ela
é plena e absoluta. Portanto, a lei não tem lugar nessa justiça, nem prevalecem com
seu subterfúgio,não só falso, mas até nitidamente ridículo, no tocante à partícula de
exclusividade – somente. Ora, porventura não a atribui exclusivamente à fé ao remover
toda virtude das obras?164 Pergunto: o que estas expressões significam: “Sua
justiça se manifestou sem a lei” [Rm 3.21]; “O homem é justificado gratuitamente”
[Rm 3.24]; e “sem as obras da lei”? [Rm 3.28].
Neste ponto, eles contam com engenhoso subterfúgio; ainda que eles mesmos
não o tenham cogitado, pelo contrário, tomaram-no de Orígenes e de alguns dos
antigos, no entanto é algo muito inepto, a saber: vociferam que as obras excluídas
são as cerimoniais da lei, não as morais. Tão proficientes se tornam com suas assíduas
disputas que, na verdade, nem observamos rudimentos primários da dialética!
Porventura pensam que o Apóstolo está a delirar quando, como prova de sua doutrina
adiciona estas passagens: “O homem que fizer estas coisas por elas viverá” [Gl
3.12]; e “Maldito é todo aquele que não cumprir todas as coisas que foram escritas
no livro da lei” [Gl 3.10]? A não ser que estejam fora de si, não poderão dizer que se
promete vida aos cultores de cerimônias, e que somente são malditos seus transgressores.165
Se estas passagens devem ser entendidas em relação à lei moral, não
há dúvida de que também as obras morais sejam excluídas do poder de justificar.
Ao mesmo propósito contemplam estes argumentos de que Paulo faz uso “uma
vez que através da lei advém o conhecimento do pecado” [Rm 3.20], portanto não a
justiça, porque “a lei opera a ira” [Rm 4.15]; logo, não a justiça, porque “a lei não
pode tornar segura a consciência” [Gl 3.21]; por isso, não pode conferir a justiça,
porque “a fé é imputada para justiça” [Rm 4.5]; portanto, a justiça não é galardão de
obra, ao contrário, é concedida não como devida, porque “somos justificados pela
fé, cortada é a jactância” [Rm 3.27, 28]; se uma lei fosse dada que pudesse vivificar,
a justiça procederia, na verdade, da lei, mas Deus a todas as coisas encerrou debaixo
do pecado, para que a promessa fosse dada aos que crêem[Gl 3.21, 22]. Repliquem
agora, se podem, que estas coisas se reportam às cerimônias, não às questões
de natureza moral. Com efeito, até mesmo as próprias crianças apupariam tão grande
impudência! Portanto, quando se priva a lei da faculdade de justificar, isso deve
ser visto como se referindo à lei em sua totalidade.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32