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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

AS OBRAS DA LEI SE REVESTEM DE VALOR NÃO INERENTE; AO CONTRÁRIO, PELA APRECIAÇÃO DIVINA; NEM A JUSTIFICAÇÃO SE APÓIA EM NOSSO PRÓPRIO AMOR

No entanto, se alguém se admire por que o Apóstolo, falando em obras da lei, não contente em haver mencionado apenas o termo obras, haja feito uso de tal suplemento, o motivoestá bem claro. Porque, embora as obras sejam tão estimadas, esse valor elas o têm da aprovação de Deus mais do que da própria dignidade delas. Ora, quem perante Deus ouse jactar-se da justiça das obras, senão daquela que ele próprio haja aprovado? Quem ouse reivindicar recompensa como se lhes fosse devida, senão aquela que ele haja prometido? Portanto, da benevolência de Deus depende que as obras sejam dignas de ter o título de justiça, e que mereçam ser galardoadas. Realmente, todo o valor das obras se fundamenta em que o homem se esforce com elas em obedecer a Deus. Por essa causa, para provar que Abraão não pudera ser justificado pelas obras, o Apóstolo alega, em outro lugar [Gl 3.17], que a lei foi promulgada, finalmente, quase quatrocentos e trinta anos após haver firmado o pacto com ele. Rir-se-iam os néscios de argumento desta natureza, visto que poderia ter havido obras justas antes da promulgação da lei. Mas, porque sabia que somente pelo testemunho e dignificação de Deus as obras se revestem de tanto valor, o Apóstolo tomou por pressuposto que antes da lei não tiveram elas o poder de justificar. Temos aqui a razão por que, ao querer privar as obras da faculdade de justificação, menciona expressamente as obras da lei; pois, evidentemente, é somente em referência a elas que se pode mover controvérsia, visto que também, por vezes, excetue a todas e quaisquer obras, sem qualificação, como quando diz, no testemunho de Davi, que ao homem a quem Deus imputa justiça sem obra se atribui bem-aventurança [Sl 32.1, 2; Rm 4.6]. Não podem, pois, com todas as suas sutilezas, astuciar dizendo que não aceitamos a palavra exclusiva em toda sua amplitude.166 E também inutilmente lançam mão da frívola sutileza de que somos justificados somente pela fé que opera através do amor, de sorte que a justiça tem por base o amor. Certamente confessamos, com Paulo, que nenhuma outra fé justifica senão aquela que opera em amor [Gl 5.6]; contudo, sustentamos que a fé não adquire o poder de justificar dessa eficiência da caridade. Com efeito, a fé não justifica por outra razão senão porque nos induz à participação da justiça de Cristo. Doutra sorte, cairia por terra tudo o que o Apóstolo insiste com tanto empenho: “Àquele que trabalha”, diz ele, “não se imputa a recompensa segundo a graça, mas segundo a dívida; àquele, porém, que não trabalha, mas crê naquele que justifica ao ímpio, a fé lhe é imputada para justiça” [Rm 4.4, 5]. Porventura podia ele falar mais claramente do que dizer que da parte da fé não há nenhuma justiça, a não ser onde não há obra alguma a que se deve pagamento, e que a fé é imputada para justiça, e então, finalmente, quando a justiça é outorgada por graça não devida?

João Calvino