No entanto, se alguém se admire por que o Apóstolo, falando em obras da lei,
não contente em haver mencionado apenas o termo obras, haja feito uso de tal
suplemento, o motivoestá bem claro. Porque, embora as obras sejam tão estimadas,
esse valor elas o têm da aprovação de Deus mais do que da própria dignidade delas.
Ora, quem perante Deus ouse jactar-se da justiça das obras, senão daquela que ele
próprio haja aprovado? Quem ouse reivindicar recompensa como se lhes fosse devida,
senão aquela que ele haja prometido? Portanto, da benevolência de Deus depende
que as obras sejam dignas de ter o título de justiça, e que mereçam ser galardoadas.
Realmente, todo o valor das obras se fundamenta em que o homem se esforce
com elas em obedecer a Deus.
Por essa causa, para provar que Abraão não pudera ser justificado pelas obras, o
Apóstolo alega, em outro lugar [Gl 3.17], que a lei foi promulgada, finalmente,
quase quatrocentos e trinta anos após haver firmado o pacto com ele. Rir-se-iam os
néscios de argumento desta natureza, visto que poderia ter havido obras justas antes
da promulgação da lei. Mas, porque sabia que somente pelo testemunho e dignificação
de Deus as obras se revestem de tanto valor, o Apóstolo tomou por pressuposto
que antes da lei não tiveram elas o poder de justificar. Temos aqui a razão por que,
ao querer privar as obras da faculdade de justificação, menciona expressamente as
obras da lei; pois, evidentemente, é somente em referência a elas que se pode mover
controvérsia, visto que também, por vezes, excetue a todas e quaisquer obras, sem
qualificação, como quando diz, no testemunho de Davi, que ao homem a quem
Deus imputa justiça sem obra se atribui bem-aventurança [Sl 32.1, 2; Rm 4.6]. Não
podem, pois, com todas as suas sutilezas, astuciar dizendo que não aceitamos a
palavra exclusiva em toda sua amplitude.166
E também inutilmente lançam mão da frívola sutileza de que somos justificados
somente pela fé que opera através do amor, de sorte que a justiça tem por base o
amor. Certamente confessamos, com Paulo, que nenhuma outra fé justifica senão
aquela que opera em amor [Gl 5.6]; contudo, sustentamos que a fé não adquire o
poder de justificar dessa eficiência da caridade. Com efeito, a fé não justifica por
outra razão senão porque nos induz à participação da justiça de Cristo. Doutra sorte,
cairia por terra tudo o que o Apóstolo insiste com tanto empenho: “Àquele que
trabalha”, diz ele, “não se imputa a recompensa segundo a graça, mas segundo a
dívida; àquele, porém, que não trabalha, mas crê naquele que justifica ao ímpio, a fé lhe é imputada para justiça” [Rm 4.4, 5]. Porventura podia ele falar mais claramente
do que dizer que da parte da fé não há nenhuma justiça, a não ser onde não há obra
alguma a que se deve pagamento, e que a fé é imputada para justiça, e então, finalmente,
quando a justiça é outorgada por graça não devida?
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32