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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A JUSTIFICAÇÃO É TÃO-SOMENTE PELA FÉ, SEM A INCLUSÃO DE QUALQUER OBRA HUMANA

Visto que, porém, boa parte dos homens imagina uma justiça amalgamada pela fé e pelas obras, também já demonstramos previamente que a justiça da fé e a justiça das obras diferem entre si; que, em subsistindo uma, necessariamente se derrua a outra. O Apóstolo diz que “reputara tudo como escória, para ganhar a Cristo e nele ser achado, não tendo sua própria justiça, a qual procede da lei, mas aquela que provém da fé em Jesus Cristo, a justiça que provém de Deusmediante a fé” [Fp 3.8, 9]. Vês que aqui há não só uma comparação de contrários, como também se indica ser necessário que aquele que queira obter a justiça de Cristo deve dar de mão à justiça própria. Por isso, ensina em outro lugar [Rm 10.3] que esta foi a causa da ruína dos judeus: que “desejando estabelecer sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus”. Se ao estabelecer a justiça própria, alijamos a justiça de Deus, para que consigamos esta, então necessariamente aquela é inteiramente abolida. Ele também mostra isso mesmo quando declara que nossa jactância é excluída não pela lei, mas pela fé [Rm 3.27]. Donde se segue que por quanto tempo permanecer a mínima parcela de justiça proveniente das obras, em nós permanece alguma razão de nos gloriarmos. Ora, se a fé exclui toda jactância, a justiça proveniente das obras de modo algum pode associar-se à justiça proveniente da fé. Nesse sentido, Paulo fala tão claramente no quarto capitulo da Epístola aos Romanos, que não deixa algum a sofismas ou tergiversações. “Se Abraão”, diz ele, “foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar”; porém acrescenta: “Contudo, ele não tem de que se gloriar diante de Deus” [Rm 4.2]. Portanto, segue-se que Abraão não foi justificado pelas obras. A seguir, Paulo propõe outro argumento com base nos contrários. Quando se dá às obras alguma recompensa, isso se faz por dívida, não por graça [Rm 4.4]. Mas a justiça é atribuída à fé em conformidade com a graça. Portanto, isso não se dá em função dos méritos de obras. Que se evapore, pois, o sonho daqueles que imaginam uma justiça mesclada de fé e abras.

João Calvino