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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A JUSTIFICAÇÃO NOS É DEFERIDA UNICAMENTE DA JUSTIÇA DE CRISTO, COM QUEM NOS IDENTIFICAMOS

Daqui se conclui também isto: unicamente pela intercessão da justiça de Cristo é que logramos ser justificados diante de Deus. Isso equivale exatamente se fosse dito que o homem não é inerentemente justo; pelo contrário, visto que a justiça de Cristo se comunica com ele por imputação, o que é digno de acurada consideração. Porque desse modo se desvanece aquela fútil fantasia, segundo a qual o homem é justificado pela fé enquanto por ela recebe o Espírito de Deus, com o qual é feito justo. Isto é tão contrário à doutrina exposta, que jamais poderá estar de acordo com ela.170 Ora, sem sombra de dúvida, que quem deve buscar a justiça fora de si mesmo se encontra desnudo de sua própria justiça. O Apóstolo, porém, afirma isto mui claramente, quando escreve que “Àquele que não conhecia pecado foi feito vítima expiatória de pecado por nós, para que fôssemos nele feitos justiça de Deus” [2Co 5.21]. Vêsque nossa justiça não está em nós, mas em Cristo; que entramos na posse desse direito somente porque somos participantes de Cristo, pois que com ele possuímos todas as suas riquezas. Tampouco a isso se contrapõe o que ensina em outro lugar [Rm 8.3, 4], a saber, que o pecado foi condenado na carne de Cristo, para que a justiça da lei se cumprisse em nós, onde não menciona outro cumprimento senão aquele que conseguimos por imputação. Pois, mercê desse direito, Cristo, o Senhor, compartilha conosco sua justiça, de sorte que, no que concerne ao juízo de Deus, de certa maneira maravilhosa ele transmite seu poder. Que ele não sentiu outra coisa, faz-se profundamente claro à luz de outra afirmação sua, que fizera pouco antes [Rm 5.19]: “Como pela desobediência de um só fomos todos constituídos pecadores, assim também pela obediência de um só somos justificados.” Que outra coisa é depositar nossa justiça na obediência de Cristo, senão declarar que somente nele somos tidos por justos, visto que a obediência de Cristo nos é creditada como se fosse nossa? Por isso me parece que Ambrósio tomou admiravelmente como exemplo desta justificação a bênção de Jacó [Gn 27.1-29], isto é, assim como ele por si mesmo não merecia a primogenitura, e só a conseguiu disfarçando-se na aparência do irmão; e vestindo sua roupa, que exalava mui aprazível odor, se aproximou do pai para receber em proveito próprio a bênção de outro; igualmente é necessário que nos ocultemos sob a admirável pureza de Cristo, nosso irmão primogênito, para conseguir testemunho da justiça ante a consideração de nosso Pai celestial. São as palavras de Ambrósio: “Que Isaque sentiu o cheiro das vestes, talvez signifique isso: que não somos justificados pelas obras, mas pela fé, porquanto a fraqueza da carne constitui entrave às obras, mas a clareza da fé, que merece o perdão das transgressões, ofusca o erro dos feitos.”171 E de fato assim é, pois, para que compareçamos perante a face de Deus para a salvação nos é necessário que exalemos sua boa fragrância e nossas faltas sejam cobertas e sepultadas em sua perfeição.

João Calvino