Daqui se conclui também isto: unicamente pela intercessão da justiça de Cristo
é que logramos ser justificados diante de Deus. Isso equivale exatamente se fosse
dito que o homem não é inerentemente justo; pelo contrário, visto que a justiça de Cristo se comunica com ele por imputação, o que é digno de acurada consideração.
Porque desse modo se desvanece aquela fútil fantasia, segundo a qual o homem é
justificado pela fé enquanto por ela recebe o Espírito de Deus, com o qual é feito
justo. Isto é tão contrário à doutrina exposta, que jamais poderá estar de acordo com
ela.170 Ora, sem sombra de dúvida, que quem deve buscar a justiça fora de si mesmo
se encontra desnudo de sua própria justiça. O Apóstolo, porém, afirma isto mui
claramente, quando escreve que “Àquele que não conhecia pecado foi feito vítima
expiatória de pecado por nós, para que fôssemos nele feitos justiça de Deus” [2Co
5.21]. Vêsque nossa justiça não está em nós, mas em Cristo; que entramos na posse
desse direito somente porque somos participantes de Cristo, pois que com ele possuímos
todas as suas riquezas.
Tampouco a isso se contrapõe o que ensina em outro lugar [Rm 8.3, 4], a saber,
que o pecado foi condenado na carne de Cristo, para que a justiça da lei se cumprisse
em nós, onde não menciona outro cumprimento senão aquele que conseguimos
por imputação. Pois, mercê desse direito, Cristo, o Senhor, compartilha conosco sua
justiça, de sorte que, no que concerne ao juízo de Deus, de certa maneira maravilhosa
ele transmite seu poder. Que ele não sentiu outra coisa, faz-se profundamente
claro à luz de outra afirmação sua, que fizera pouco antes [Rm 5.19]: “Como pela
desobediência de um só fomos todos constituídos pecadores, assim também pela
obediência de um só somos justificados.” Que outra coisa é depositar nossa justiça
na obediência de Cristo, senão declarar que somente nele somos tidos por justos,
visto que a obediência de Cristo nos é creditada como se fosse nossa?
Por isso me parece que Ambrósio tomou admiravelmente como exemplo desta
justificação a bênção de Jacó [Gn 27.1-29], isto é, assim como ele por si mesmo não
merecia a primogenitura, e só a conseguiu disfarçando-se na aparência do irmão; e
vestindo sua roupa, que exalava mui aprazível odor, se aproximou do pai para receber
em proveito próprio a bênção de outro; igualmente é necessário que nos ocultemos
sob a admirável pureza de Cristo, nosso irmão primogênito, para conseguir
testemunho da justiça ante a consideração de nosso Pai celestial. São as palavras de
Ambrósio: “Que Isaque sentiu o cheiro das vestes, talvez signifique isso: que não
somos justificados pelas obras, mas pela fé, porquanto a fraqueza da carne constitui
entrave às obras, mas a clareza da fé, que merece o perdão das transgressões, ofusca
o erro dos feitos.”171 E de fato assim é, pois, para que compareçamos perante a face
de Deus para a salvação nos é necessário que exalemos sua boa fragrância e nossas
faltas sejam cobertas e sepultadas em sua perfeição.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32