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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

COMPROVAÇÃO BÍBLICA E JUÍZOS PATRÍSTICOS DE QUE A JUSTIFICAÇÃO CONSISTE NA RECONCILIAÇÃO COM DEUS E NO PERDÃO DOS PECADOS EM MUTUALIDADE E EQUIVALÊNCIA

Um e outro destes dois pontos emanam esplendidamente destas palavras de Paulo que já referi: “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens seus delitos, e nos confiou a palavra da reconciliação” [2Co 5.19]. Em seguida, ele adiciona a síntese de sua função de embaixador: “Àquele que não conhecia pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” [2Co 5.21]. Aqui o Apóstolo enuncia indistintamente a justiça e a reconciliação, para que entendamos que um elemento se contém no outro, reciprocamente. Ensina, porém, o modo de conseguir-se esta justiça: enquanto as transgressões não nos forem imputadas. Desse modo, que doravante não estejas em dúvida quanto a como Deus nos há de justificar, quando ouves que ele nos reconcilia consigo, não nos imputando as transgressões. Assim, na Epistola aos Romanos, com o testemunho de Davi, Paulo prova que a justiça é imputada ao homem sem as obras, porque ele pronuncia ser “bem-aventurado o homem cujas iniqüidades foram remitidas, cujos pecados foram cobertos, a quem o Senhor não imputou as transgressões” [Sl 32.1, 2; Rm 4.6-8]. Fora de toda dúvida, ele aí põe bem-aventurança por justiça; logo, quando a declara consistir na remissão dos pecados, não há por que a definirmos de outra maneira. Igualmente, Zacarias, pai de João Batista, canta o conhecimento da salvação como posto na remissão dos pecados [Lc 1.77]. Seguindo essa regra, no sermão que pregou entre os antioquianosquanto à suma da salvação, é narrado por Lucas haver Paulo concluído nestes termos: “Através deste se vos anuncia remissãodos pecados e de todas aquelas coisas das quais não pudestes ser justificados na lei de Moisés, por ele é justificado todo aquele que crê” [At 13.38, 39]. De tal modo o Apóstolo liga a remissão dos pecados com a justiça, que mostra serem uma e a mesma coisa; donde, com razão, argumenta que a justiça nos é graciosa, a qual obtemos pela benevolência de Deus. Nem deve parecer uma afirmação inusitada, que os fiéis não são justos diante de Deus por meio das obras, mas por graciosa aceitação, quando ocorre tantas vezes não só na Escritura, mas ainda, de quando em quando, os antigos falam entre si. Pois assim fala Agostinho em algum lugar: “A justiça dos santos, neste mundo, consta mais de remissão de pecados que de perfeição de virtudes”, ao que correspondem estas preclaras postulações de Bernardo: “Não pecar é a justiça de Deus; mas a justiça do homem é a benevolência de Deus.”168 Antes, porém, ele afirma que Cristo nos é justiça em absolvição; e daí, justos são somente aqueles que alcançaram perdão de sua misericórdia.

João Calvino