Um e outro destes dois pontos emanam esplendidamente destas palavras de
Paulo que já referi: “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não
imputando aos homens seus delitos, e nos confiou a palavra da reconciliação” [2Co
5.19]. Em seguida, ele adiciona a síntese de sua função de embaixador: “Àquele que
não conhecia pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” [2Co 5.21]. Aqui o Apóstolo enuncia indistintamente a justiça e a
reconciliação, para que entendamos que um elemento se contém no outro, reciprocamente.
Ensina, porém, o modo de conseguir-se esta justiça: enquanto as transgressões
não nos forem imputadas. Desse modo, que doravante não estejas em dúvida
quanto a como Deus nos há de justificar, quando ouves que ele nos reconcilia
consigo, não nos imputando as transgressões.
Assim, na Epistola aos Romanos, com o testemunho de Davi, Paulo prova que
a justiça é imputada ao homem sem as obras, porque ele pronuncia ser “bem-aventurado
o homem cujas iniqüidades foram remitidas, cujos pecados foram cobertos, a
quem o Senhor não imputou as transgressões” [Sl 32.1, 2; Rm 4.6-8]. Fora de toda
dúvida, ele aí põe bem-aventurança por justiça; logo, quando a declara consistir na
remissão dos pecados, não há por que a definirmos de outra maneira. Igualmente,
Zacarias, pai de João Batista, canta o conhecimento da salvação como posto na remissão
dos pecados [Lc 1.77]. Seguindo essa regra, no sermão que pregou entre os
antioquianosquanto à suma da salvação, é narrado por Lucas haver Paulo concluído
nestes termos: “Através deste se vos anuncia remissãodos pecados e de todas aquelas
coisas das quais não pudestes ser justificados na lei de Moisés, por ele é justificado
todo aquele que crê” [At 13.38, 39].
De tal modo o Apóstolo liga a remissão dos pecados com a justiça, que mostra
serem uma e a mesma coisa; donde, com razão, argumenta que a justiça nos é graciosa,
a qual obtemos pela benevolência de Deus. Nem deve parecer uma afirmação
inusitada, que os fiéis não são justos diante de Deus por meio das obras, mas por
graciosa aceitação, quando ocorre tantas vezes não só na Escritura, mas ainda, de
quando em quando, os antigos falam entre si. Pois assim fala Agostinho em algum
lugar: “A justiça dos santos, neste mundo, consta mais de remissão de pecados
que de perfeição de virtudes”, ao que correspondem estas preclaras postulações de
Bernardo: “Não pecar é a justiça de Deus; mas a justiça do homem é a benevolência
de Deus.”168 Antes, porém, ele afirma que Cristo nos é justiça em absolvição; e daí,
justos são somente aqueles que alcançaram perdão de sua misericórdia.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32