TODOS, SEM EXCEÇÃO, NADA PODEM ESPERAR ANTE O TRIBUNAL DE DEUS
SENÃO INDIRIMÍVEL E INEXORÁVEL CONDENAÇÃO, POIS NINGUÉM É INERENTEMENTE
JUSTO DIANTE DELE
Ainda que seja evidente à luz de luminosos testemunhos que todas essas coisas são
mui verdadeiras, contudo, até que ponto necessárias não se fará totalmente patente
antes que tenhamos posto diante dos olhos essas coisas que nos devem ser os fundamentos
de toda esta discussão. Portanto, isto nos ocorre desde o início: que a questão
foi movida não em relação à justiça de foro humano, mas do tribunal celeste,
para que não meçamos conforme nossa tacanha medida a inteireza das obras que ela
tem de satisfazer ao juízo divino.
Entretanto, causa estarrecimento com quão grande temeridade e ousadia geralmente
isso é definido! Além disso, sabe-se bem que não há ninguém que com maior
descaro se atreva a falar da justiça das obras do que quem publicamente não passa
de perdido e está carregado de pecados de todos conhecidos, ou, melhor, por dentro
estão cheios de vícios e maus intentos. Isso acontece porque não cogitam da justiça
de Deus, pela qual se fossem afetados sequer de um mínimo sentimento, nunca
a teriam em tão grande desconsideração. De fato, na verdade ela é desmedidamente
desvalorizada, se não é de tal forma reconhecida que nada dela seja aceito, se nada
é íntegro e absolutamente isento de toda mancha, o que jamais se encontrará nem
poderá ser encontrado em homem algum. Sem dúvida é fácil e cômodo a qualquer um arengar nos sombreados das escolas
quanto ao valor das obras para justificar os homens. Quando, porém, se chega à
presença de Deus, impõe-se que tais passatempos sejam alijados, pois é aí que a
matéria é tratada seriamente, onde ela não pode ser tratada jocosamente como
logomaci,a [logomachia – guerra de palavras]. É para isto que nossa mente deve volver-se, caso queiramos com proveito indagar acerca da verdadeira justiça: como
haveremos de responder ao Juiz celeste quando ele nos chamar a juízo.
Devemos descrever para nós mesmos esse Juiz, não como naturalmente o imaginam
nossos intelectos; pelo contrário, como ele nos é representado na Escritura, a
saber, ante cujo fulgor as próprias estrelas se tornam opacas, à cuja força os montes
se derretem, ante cuja ira a terra é abalada, de cuja sabedoria os sábios são apanhados
em sua astúcia, à vista de cuja pureza todas as coisas são maculadas, ante cuja
justiça nem mesmo os anjos podem suportar, Aquele que não inocenta o culpado,
cuja vingança, quando uma vez se inflama, penetra até os extremos do inferno.
Então, quando esse Juiz se assenta para examinar os feitos dos homens, quem se
postará seguro diante de seu trono? Diz o Profeta: “Quem habitará com o fogo
devorador? Quem permanecerá com as chamas sempiternas? Aquele que anda na
justiça e fala a verdade” etc. [Is 33.14, 15]. Que venha, pois, e se adiante, quem quer
que seja. Mas de fato essa resposta faz com que ninguém dê um passo à frente. Ora,
em contrário, uma voz terrível ressoa: “Se tu, ó Senhor, observares as iniqüidades,
quem, Senhor, subsistirá?” [Sl 130.3]. Todos, na verdade, pereceriam imediatamente,
como está escrito em outro lugar: “Seria, porventura, o homem mais puro que
seu Criador? Eis que ele não confia em seus servos e aos anjos atribui loucura.
Quanto menos àqueles que habitam em casas de lodo, cujo fundamento está no pó,
e são esmagados como a traça! Desde a manhã até a tarde serão despedaçados” [Jó
4.17-20]. Igualmente: “Eis que ele não confia em seus santos, e nem os céus são
puros a seus olhos. Quanto mais abominável e inútil é o homem, que beberá iniqüidade
como bebe água?” [Jó 15.15, 16].
Certamente reconheço que no livro de Jó se faz menção de uma justiça que é
mais excelsa que a observância da lei, e vale a pena manter esta distinção, porquanto,
ainda que alguém satisfizesse à lei, por certo que nem assim suportaria o escrutínio
dessa justiça que extrapola a todos os sentidos. Conseqüentemente, embora
tenha o testemunho de uma boa consciência, no entanto, Jó se cala atônito, ao ver
que não se pode aplacar a Deus nem com a santidade dos anjos, caso se proponha a
examinar suas obras com rigor.174 Portanto, deixo agora fora de consideração aquela
justiça que já abordei, porquanto ela paira além da compreensão. Contudo, apenas
digo que, se nossa vida fosse apreciada em conformidade com a norma da lei escrita,
seríamos muito mais que broncos, se tantas maldições com as quais o Senhor
quis estimular-nos não nos atormentam e enchem de horror. “Maldito todo aquele
que não permanecer em todas as coisas que foram escritas neste livro” [Dt 27.26;
Gl 3.10] Enfim, toda essa discussão seria insípida ou diluída, a menos que, como réu,
cada um se assente diante do celeste Juiz e, solícito por sua absolvição, espontaneamente
se prostre e a nada se reduza.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32