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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

PARA QUE DEVERAS AQUILATEMOS A JUSTIFICAÇÃO GRACIOSA FAZ-SE NECESSÁRIO ELEVAR A MENTEATÉ O TRIBUNAL DE DEUS

TODOS, SEM EXCEÇÃO, NADA PODEM ESPERAR ANTE O TRIBUNAL DE DEUS SENÃO INDIRIMÍVEL E INEXORÁVEL CONDENAÇÃO, POIS NINGUÉM É INERENTEMENTE JUSTO DIANTE DELE

Ainda que seja evidente à luz de luminosos testemunhos que todas essas coisas são mui verdadeiras, contudo, até que ponto necessárias não se fará totalmente patente antes que tenhamos posto diante dos olhos essas coisas que nos devem ser os fundamentos de toda esta discussão. Portanto, isto nos ocorre desde o início: que a questão foi movida não em relação à justiça de foro humano, mas do tribunal celeste, para que não meçamos conforme nossa tacanha medida a inteireza das obras que ela tem de satisfazer ao juízo divino. Entretanto, causa estarrecimento com quão grande temeridade e ousadia geralmente isso é definido! Além disso, sabe-se bem que não há ninguém que com maior descaro se atreva a falar da justiça das obras do que quem publicamente não passa de perdido e está carregado de pecados de todos conhecidos, ou, melhor, por dentro estão cheios de vícios e maus intentos. Isso acontece porque não cogitam da justiça de Deus, pela qual se fossem afetados sequer de um mínimo sentimento, nunca a teriam em tão grande desconsideração. De fato, na verdade ela é desmedidamente desvalorizada, se não é de tal forma reconhecida que nada dela seja aceito, se nada é íntegro e absolutamente isento de toda mancha, o que jamais se encontrará nem poderá ser encontrado em homem algum. Sem dúvida é fácil e cômodo a qualquer um arengar nos sombreados das escolas quanto ao valor das obras para justificar os homens. Quando, porém, se chega à presença de Deus, impõe-se que tais passatempos sejam alijados, pois é aí que a matéria é tratada seriamente, onde ela não pode ser tratada jocosamente como logomaci,a [logomachia – guerra de palavras]. É para isto que nossa mente deve volver-se, caso queiramos com proveito indagar acerca da verdadeira justiça: como haveremos de responder ao Juiz celeste quando ele nos chamar a juízo. Devemos descrever para nós mesmos esse Juiz, não como naturalmente o imaginam nossos intelectos; pelo contrário, como ele nos é representado na Escritura, a saber, ante cujo fulgor as próprias estrelas se tornam opacas, à cuja força os montes se derretem, ante cuja ira a terra é abalada, de cuja sabedoria os sábios são apanhados em sua astúcia, à vista de cuja pureza todas as coisas são maculadas, ante cuja justiça nem mesmo os anjos podem suportar, Aquele que não inocenta o culpado, cuja vingança, quando uma vez se inflama, penetra até os extremos do inferno. Então, quando esse Juiz se assenta para examinar os feitos dos homens, quem se postará seguro diante de seu trono? Diz o Profeta: “Quem habitará com o fogo devorador? Quem permanecerá com as chamas sempiternas? Aquele que anda na justiça e fala a verdade” etc. [Is 33.14, 15]. Que venha, pois, e se adiante, quem quer que seja. Mas de fato essa resposta faz com que ninguém dê um passo à frente. Ora, em contrário, uma voz terrível ressoa: “Se tu, ó Senhor, observares as iniqüidades, quem, Senhor, subsistirá?” [Sl 130.3]. Todos, na verdade, pereceriam imediatamente, como está escrito em outro lugar: “Seria, porventura, o homem mais puro que seu Criador? Eis que ele não confia em seus servos e aos anjos atribui loucura. Quanto menos àqueles que habitam em casas de lodo, cujo fundamento está no pó, e são esmagados como a traça! Desde a manhã até a tarde serão despedaçados” [Jó 4.17-20]. Igualmente: “Eis que ele não confia em seus santos, e nem os céus são puros a seus olhos. Quanto mais abominável e inútil é o homem, que beberá iniqüidade como bebe água?” [Jó 15.15, 16]. Certamente reconheço que no livro de Jó se faz menção de uma justiça que é mais excelsa que a observância da lei, e vale a pena manter esta distinção, porquanto, ainda que alguém satisfizesse à lei, por certo que nem assim suportaria o escrutínio dessa justiça que extrapola a todos os sentidos. Conseqüentemente, embora tenha o testemunho de uma boa consciência, no entanto, Jó se cala atônito, ao ver que não se pode aplacar a Deus nem com a santidade dos anjos, caso se proponha a examinar suas obras com rigor.174 Portanto, deixo agora fora de consideração aquela justiça que já abordei, porquanto ela paira além da compreensão. Contudo, apenas digo que, se nossa vida fosse apreciada em conformidade com a norma da lei escrita, seríamos muito mais que broncos, se tantas maldições com as quais o Senhor quis estimular-nos não nos atormentam e enchem de horror. “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que foram escritas neste livro” [Dt 27.26; Gl 3.10] Enfim, toda essa discussão seria insípida ou diluída, a menos que, como réu, cada um se assente diante do celeste Juiz e, solícito por sua absolvição, espontaneamente se prostre e a nada se reduza.

João Calvino