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domingo, 9 de setembro de 2018

A PROFUNDA E NECESSÁRIA DIFERENÇA ENTRE A NOÇÃO CRISTÃ E O CONCEITO FILOSÓFICO DESSA PACIÊNCIA OU RESIGNAÇÃO ANTE AS ADVERSIDADES DA VIDA

Mas, como já determinamos que a causa principal para suportar e levar a cruz é a consideração da vontade divina, é preciso expor a diferença entre a paciência cristã e a paciência filosófica.140 Indubitavelmente, pouquíssimos dentre os filósofos se elevaram a essa eminência da razão que entendessem sermos nós provados pela mão de Deus através das aflições e reconhecessem que se nos impõe obedecer a Deus nesse aspecto. Mas, ainda esses mesmos a outra razão não recorrem a não ser que seja necessário. Que isso significa, senão que se deve ceder a Deus, visto que porfiarás em vão tentando lutar contra ele? Ora, se a Deus obedecemos apenas por ser uma questão de necessidade, se é possível evadi-la, cessaremos de obedecerlhe. Todavia, outra coisa bem diferente manda a Escritura considerar na vontade de Deus, isto é, primeiramente, sua justiça e eqüidade; então, seu cuidado de nossa salvação. Portanto, as exortações cristãs à paciência são desta natureza: seja a pobreza, seja o exílio, seja a prisão, seja o vilipêndio, seja a doença, seja a perda de entes queridos, ou seja qualquer outra coisa semelhante que porventura nos faça sofrer, é preciso pensar que nada dessas adversidades acontece senão pelo arbítrio e providência de Deus; aliás, que ele nada faz que não seja por determinação justíssima. E então? Porventura nossas transgressões, inumeráveis e quotidianas, não mereceriam ser castigadas mais rigorosamente e com varas mais pesadas que aquelas que nos são aplicadas por sua clemência? Porventura, não é muito justo que nossa carne seja domada e como que acostumada ao jugo, para que não se prorrompa desenfreadamente, segundo sua disposição natural? Porventura a justiça e verdade de Deus não são dignas de que por sua causa padeçamos? Ora, se a eqüidade de Deus se mostra indubitável nas aflições, não podemos murmurar contra ela, nem lutar contra ela, sem iniqüidade! Já não ouvimos aquela insípida cantilena: “É preciso ceder, porque provém de necessidade”, mas o vívido e pleno preceito de eficiência: “É preciso obedecer, porque não é lícito resistir; impõe-se sofrer pacientemente, porquanto a impaciência é contumácia contra a justiça de Deus.” Ora, visto que na verdade nos é aprazível, afinal, aquilo que reconhecemos ser para nossa salvação e para o bem, também neste aspecto o Pai boníssimo nos consola, enquanto declara que no próprio fato de que nos aflige com uma cruz, contempla a nossa salvação. Ora, se transparece que as tribulações nos são salutares, por que não as suportamos com espíritoagradecido e sereno? Visto que, ao suportá-las pacientemente, não sucumbimos à necessidade; pelo contrário, aquiescemos ao nosso bem. Afirmo que estas reflexões fazem com que, sob o senso natural de pungência, enquanto na cruz se nos retrai o coração, muito mais se dilata na alegria espiritual. Donde também se deduz ação de graças, as quais não podem ser apresentadas sem alegria, porque, se o louvor do Senhor e a ação de graças só podem fluir de um coração alegre e feliz, e nada no mundo pode ser-lhes obstáculo, daqui se faz claro quão necessário é temperar o amargor da cruz com o deleite espiritual.

João Calvino