Mas, como já determinamos que a causa principal para suportar e levar a cruz é
a consideração da vontade divina, é preciso expor a diferença entre a paciência
cristã e a paciência filosófica.140 Indubitavelmente, pouquíssimos dentre os filósofos
se elevaram a essa eminência da razão que entendessem sermos nós provados
pela mão de Deus através das aflições e reconhecessem que se nos impõe obedecer
a Deus nesse aspecto. Mas, ainda esses mesmos a outra razão não recorrem a não
ser que seja necessário. Que isso significa, senão que se deve ceder a Deus, visto
que porfiarás em vão tentando lutar contra ele? Ora, se a Deus obedecemos apenas
por ser uma questão de necessidade, se é possível evadi-la, cessaremos de obedecerlhe.
Todavia, outra coisa bem diferente manda a Escritura considerar na vontade de
Deus, isto é, primeiramente, sua justiça e eqüidade; então, seu cuidado de nossa
salvação.
Portanto, as exortações cristãs à paciência são desta natureza: seja a pobreza,
seja o exílio, seja a prisão, seja o vilipêndio, seja a doença, seja a perda de entes
queridos, ou seja qualquer outra coisa semelhante que porventura nos faça sofrer, é
preciso pensar que nada dessas adversidades acontece senão pelo arbítrio e providência
de Deus; aliás, que ele nada faz que não seja por determinação justíssima. E
então? Porventura nossas transgressões, inumeráveis e quotidianas, não mereceriam
ser castigadas mais rigorosamente e com varas mais pesadas que aquelas que
nos são aplicadas por sua clemência? Porventura, não é muito justo que nossa carne
seja domada e como que acostumada ao jugo, para que não se prorrompa desenfreadamente,
segundo sua disposição natural? Porventura a justiça e verdade de Deus
não são dignas de que por sua causa padeçamos? Ora, se a eqüidade de Deus se
mostra indubitável nas aflições, não podemos murmurar contra ela, nem lutar contra
ela, sem iniqüidade! Já não ouvimos aquela insípida cantilena: “É preciso ceder,
porque provém de necessidade”, mas o vívido e pleno preceito de eficiência: “É preciso obedecer, porque não é lícito resistir; impõe-se sofrer pacientemente, porquanto
a impaciência é contumácia contra a justiça de Deus.”
Ora, visto que na verdade nos é aprazível, afinal, aquilo que reconhecemos ser
para nossa salvação e para o bem, também neste aspecto o Pai boníssimo nos consola,
enquanto declara que no próprio fato de que nos aflige com uma cruz, contempla
a nossa salvação. Ora, se transparece que as tribulações nos são salutares, por que
não as suportamos com espíritoagradecido e sereno? Visto que, ao suportá-las pacientemente,
não sucumbimos à necessidade; pelo contrário, aquiescemos ao nosso
bem. Afirmo que estas reflexões fazem com que, sob o senso natural de pungência,
enquanto na cruz se nos retrai o coração, muito mais se dilata na alegria espiritual.
Donde também se deduz ação de graças, as quais não podem ser apresentadas sem
alegria, porque, se o louvor do Senhor e a ação de graças só podem fluir de um
coração alegre e feliz, e nada no mundo pode ser-lhes obstáculo, daqui se faz claro
quão necessário é temperar o amargor da cruz com o deleite espiritual.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32