Total de visualizações de página

domingo, 9 de setembro de 2018

QUANTO À MEDITAÇÃO DA VIDA FUTURA

 ANTE O FASCÍNIO QUE A PRESENTE VIDA NOS EXERCE, DEUS NOS CONCLAMA CONSTANTEMENTE À VIDA FUTURA

Com qualquer gênero de tribulação, porém, de que sejamos premidos, é preciso levar sempre em conta este fim: que nos acostumemos ao menosprezo da presente vida e daí sejamos despertados à meditação da vida futura. Pois, uma vez que Deus sabe muito bem quão desmedidamente somos por natureza inclinados a um amor animalizado por este mundo, ele aplica razão apropriadíssima para nos retrair e sacudir nosso torpor, a fim de que não nos apeguemos demasiado tenazmente a esse amor. Certamente que nenhum de nós há que não aspire à celeste imortalidade; nenhum que não a aspire e não se esforce por ela por todo o decurso da vida. Pois nos envergonhamos de não superar em nada aos animais irracionais cuja condição em nada seria inferior à nossa, a não ser que nos restasse a esperança da eternidade após a morte. Com efeito, se examinares os planos, os esforços, os feitos de cada um, outra coisa aí não verássenão terra. Daí, porém, nossa obtusidade: que nossa mente, deslumbrada pelo fútil fulgor das riquezas, do poder, das honras, se entorpece ao ponto de nada ver mais distante. Também o coração, ocupado pela avareza, ambição, concupiscência, se sobrecarrega de modo a não elevar-se mais alto. Enfim, toda a alma, enredilhada nas seduções da carne, busca sua felicidade na terra. Para que o Senhor se apresse ao encontro desse mal, mediante provas contínuas de suas misérias, ele ensina aos seus acerca da futilidade da presente vida. Portanto, para que não se prometam profunda e segura paz nesta vida, ele permite que sejam freqüentemente inquietados e molestados ou por guerras, ou por tumultos, ou por assaltos, ou por outros malefícios. Para que não anelem com demasiada avidez às riquezas aleatórias e instáveis, ou se arrimem naquelas que possuem, ora pelo exílio, ora pela infertilidade do solo, ora pelo fogo, ora por outros modos, os reduzem à pobreza, ou pelo menos os mantém em condição modesta. Para que não se deliciem demasiados afagos nos deleites conjugais, ou faz com que sejam atribulados pela perversidade das esposas, ou os humilha com uma prole má, ou os aflige com a perda desses membros da família. Pois se é mais indulgente com eles, em todas essas coisas, contudo, para que não se entumeçam de vanglória, nem borbulhem de confiança pessoal, lhes põe diante dos olhos, através de enfermidades e perigos, quão instáveis são e aleatórios todos e quaisquer bens que estão expostos à mortalidade. Portanto, afinal, fluímos adequadamente proveito da disciplina da cruz quando aprendemos que esta vida, quando é estimada em si mesma, é inquieta, turbulenta, de inúmeras maneiras miserável, em nenhum aspecto absolutamente feliz; que todas as coisas que são contadas por bênçãossão incertas, inconstantes, fúteis e viciadas de muitos e mesclados males; e disso, ao mesmo tempo, concluímos que aqui nada se deve buscar ou esperar senão luta; que nossos olhos devem estar voltados para o céu, quando pensamos acerca da coroa que nos está reservada. Assim, pois, importa que nunca nosso ânimo se eleve seriamente à aspiração e à meditação da vida futura, a não ser que esteja antes imbuído de menosprezo da presente vida.

João Calvino