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domingo, 9 de setembro de 2018

O SENTIMENTO NATURAL DE TRISTEZA E PROSTRAÇÃO SE PÕE EM CONFLITO COM O CULTIVO DA RESIGNAÇÃO OU PACIÊNCIA QUE A CRUZ REQUER DE NÓS, PORÉM ESTA É FIRMADA PELO SENSO DA VONTADE DIVINA

Eu quis dizer essas coisas por esta razão: para arrebatar do desespero as almas pias, para que não venham a renunciar inteiramente ao zelo da paciência por essa causa; para que não se despojem do senso natural da dor. Isso necessariamente sobrevém àqueles que fazem da paciência insensibilidade, do homem forte e constante um tronco de árvore. Pois a Escritura defere aos santos o louvor da resignação, quando são de tal modo afligidos pela aspereza dos males que não se quebrantam nem por terra se prostram, e assim são pungidos pela amargura e ao mesmo tempo são inundados de deleite espiritual; são de tal modo premidos pela ansiedade que recobram o alento, animados pela consolação de Deus. Enquanto isso, no coração se lhes ostenta essa relutância: que o senso natural refoge às coisas que sente ser-lhe adversas e delas se arreceia, mas o afeto da piedade, mesmo por entre essas dificuldades, avança rumo à obediência da vontade divina. O Senhor expressou essa relutância quando assim falava a Pedro: “Quando eras mais jovem, te cingias e andavas para onde bem te aprazia; quando, porém, houveres envelhecido, outro te cingirá e te conduzirá para onde não hajas de querer” [Jo 21.18]. Certamente não é verossímil que Pedro, quando fosse necessário glorificar a Deus com sua morte, a isso fosse arrastado contra a vontade, pouco louvor lhe haveria de ter o martírio. Na verdade, por mais que obedecesse à divina ordenança com a máxima alegria de coração, no entanto, visto que não despira o senso próprio da natureza humana, se encontrava dividido em duas vontades. Ora, enquanto em seu íntimo ponderava aquela morte cruenta que haveria de enfrentar, atenuado de seu horror, de bom grado teria se esquivado dela; por outro lado, enquanto lhe acorria ser a ela chamado pela vontade de Deus, vencido o temor e calcado aos pés, de bom grado, e até com alegria,se lhe submetia. Portanto, se queremos ser discípulos de Cristo, faz-se necessário que busquemos isto diligentemente: que o ânimo nos seja imbuído da tão grande observância e obediência de Deus que possa domar a todas as disposições contrárias e subjugá-las à sua ordenação. E assim acontecerá que, não importa que espécie de cruz com que sejamos atribulados, reteremos paciência constante nas mais extremas angústias do espírito. Pois as próprias coisas adversas terão sua agrura com que nos mordisquem. Assim, afligidos pela enfermidade, não só gemeremos, mas também nos inquietaremos, e assim a saúde anelaremos ardentemente; acossados pela pobreza, espicaçados seremos pelos aguilhões da preocupação e da tristeza; seremos feridos pela dor da ignomínia, do desprezo, da injúria; nos funerais dos nossos verteremos as lágrimas devidas à nossa natureza. Mas esta será sempre a conclusão: Na verdade, o Senhor quis que nos conformemos à sua vontade. Antes, pelo contrário, por entre as próprias ferroadas da dor, por entre os gemidos e as lágrimas, necessário se faz que intervenha esta consideração que incline o ânimo a suportar alegremente essas próprias coisas em função das quais é assim afetado.

João Calvino