PERTENCEMOS A DEUS, NÃO A NÓS, PARA QUEM TEMOS DE VIVER E MORRER,
EM CRISTO E PELO ESPÍRITO
Se bem que a lei do Senhor tem mui excelente e de forma mui conveniente formulado
sistema de regular-se a vida cristã, contudo, pareceu bem ao Mestre celestial
conformar os seus à própria regra que prescrevera na lei, buscando formulação ainda
mais precisa. Aliás, desta formulação o princípio é este: que é dever dos fiéis
“apresentar seus corpos a Deus por sacrifício vivo, santo e a ele aceitável”, e este é
o fundamento do culto legítimo [Rm 12.1]. Daí se segue a exortação de “não vos
conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vossa mente,
para que experimenteis qual seja a vontade de Deus” [Rm 12.2].
Ora, é um ponto transcendental saber que estamos consagrados e dedicados a
Deus, para que não cogitemos nada além disso, nem falemos ou meditemos, ou
façamos a não ser para sua glória, pois o sagrado não se aplica a usos profanos sem
grave ofensa a ele. Ora, se não nos pertencemos, mas ao Senhor, faz-se patente que
se deva evitar não apenas o erro, mas ainda a que fim devemos dirigir todas as ações
de nossa vida; portanto, não nos pertencemos em nossos planos e ações, nossa razão
não deve estar no comando, e muito menos nossa vontade; portanto, não nos pertencemos
e nem nos proponhamos a buscar o que nos convenha segundo a carne; portanto,
não nos pertencemos, e até onde seja exeqüível esqueçamos a nós mesmos e
a tudo que é nosso.
Pelo contrário, somos de Deus; logo, vivamos e morramos para ele [Rm 14.8].
Somos de Deus; logo, que sua sabedoria e vontade presidam a todas as nossas ações.
Somos de Deus; logo, que todas as expressões de nossa vida se polarizem para ele
como a um só fim legítimo. O quanto de proveito tem experimentado aquele que,
ensinado que não é dono de si mesmo, anulou sua própria razão, soberania e mandato,
para que Deusde tudo se aproprie! Ora, como a peste mais eficaz é fazer com que
os homens se percam, quando se conformam a suas próprias inclinações, assim o
único porto de salvação é nada saber, nem por si mesmo querer, senão tão-somente
seguir ao Senhor, indo ele à frente [Rm 14.8].
Portanto, este é o primeiro passo: que o homem se desprenda de si mesmo, para
que aplique ao serviço do Senhor toda a força de seu entendimento. Chamo serviço não apenas ao que permanece na obediência da Palavra, mas ainda àquele pelo qual
a mente do homem, esvaziada do próprio senso da carne, se volta todo ao arbítrio do
Espírito de Deus. Esta transformação, que Paulo chama de renovação da mente
[Rm 12.2; Ef 4.23], embora seja o acesso primordial à vida, todos os filósofos a
ignoraram. Pois eles só consideram a razão como moderatriz ao homem, julgam que
só a esta se deve ouvir, afinal unicamente a esta única consentem e entregam o
governo da forma de proceder. A filosofia cristã, porém, ordena que ela deve ceder
lugar, sujeitar-se e ser submissa ao Espírito Santo, de sorte que o homem em si já
não viva, mas que deixe Cristo viver e reinar em sua vida [Gl 2.20].
João Calvino