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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

JÁ QUE NÃO NOS PERTENCEMOS, E SIM A DEUS, ENTÃO QUE NOS RENUNCIEMOS E BUSQUEMOS FAZER SUA VONTADE E PROMOVER SUA GLÓRIA

Daqui se deduz também este outro princípio: que não busquemos as coisas que são nossas, mas as que são não só da vontade do Senhor, como também contribuem para promover sua glória. De grande progresso é também esta marca: que de nós mesmos quase esquecidos, na verdade relegada a segundo plano nossa consideração pessoal, diligenciemos por fielmente devotar nosso zelo a Deus e a seus mandamentos. Pois quando a Escritura nos manda renunciar nossa consideração pessoal, não só nos exime do ânimo e cupidez de possuir, a afetação do poder, o favor dos homens, mas também erradica de nós a ambição e todo anseio de glória humana, e outras pestes mais secretas. E assim certamente convém que o homem cristão esteja disposto e preparado, que reflita sobre o que tem a ver com Deus em toda a vida. Por esta razão, como todas suas coisas ele as tomará a seu arbítrio e decisão, assim também religiosamente se atribuirá toda intenção da mente. Ora, aquele que aprendeu a olhar para Deus em tudo o que tiver de ser feito, que se aparte ao mesmo tempo de toda cogitação vã. Esta é aquela negação de pessoal que, desde a início do discipulado, com tão grande diligência Cristo inculca a seus discípulos [Mt 16.24; Mc 8.34; Lc 9.23], negação que, onde uma vez haja prevalecido no ânimo, não deixa lugar algum, primeiramente ao orgulho, também ao enfatuamento, ou à ostentação, então tampouco à avareza, ou à devassidão, ou à luxúria, ou ao efeminismo, ou a outros males que são gerados do amor egoístico. Em contrapartida, onde quer que não reine essa negação pessoal, aí prevalecem cinicamente os mais torpes vícios, ou, se há alguma aparência de virtude, é ela viciada de depravado desejo de glória. Mostra, pois, se o podes, um homem que, a menos que haja renunciado a si próprio segundo o mandamento do Senhor, queira exercer entre os homens a bondade graciosamente. Ora, todos quantos não foram possuídos desse sentimento, seguiram a virtude no mínimo por causa do louvor. Mas aqueles dentre os filósofos que jamais polemizaram principalmente se deve buscar a virtude por amor de si próprio, com tão grande arrogância se inflaram, que seja patente que buscaram a virtude não por outro motivo, senão para que pudessem ensoberbecer-se. Contudo, visto que Deus não se apraz com esses amantes da aura popular, nem com esses peitos enfunados, que sentencia que tais receberam sua recompensa do mundo [Mt 8.2, 5, 16], sendo que meretrizes e publicanos se acham mais próximos do reino dos céus que eles [Mt 21.31]. Todavia, ainda não expusemos com absoluta lucidez de quantos e quão grandes obstáculos o homem é impedido, mediante o zelo do que é reto, por quanto tempo recuse negar-se a si próprio. Pois com verdade foi dito outrora: “Um mundo de vícios se esgueira na alma do homem.” Não acharás nenhum outro remédio, senão que te negues e descartes toda a consideração pessoal, volvas toda a mente a buscar aquelas coisas que o Senhor requer de ti, a saber, que as busques simplesmente porque lhe são agradáveis.

João Calvino