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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A VIDA PRESENTE, EMBORA NÃO SEJA COMPARÁVEL À VIDA FUTURA, ESTÁ REPLETA DE BÊNÇÃOS, E É EM SI MESMA UMA BÊNÇÃO, PELA QUAL IMPORTA QUE SEJAMOS GRATOS A DEUS

Mas de fato os fiéis se acostumam ao desprezo da presente vida, de modo que nem lhe gera ódio nem ingratidão para com Deus. Com efeito, esta vida, por mais que seja saturada de infinitas misérias, contudo, é merecidamente contada entre as bênçãos de Deus que não se deve desprezar. Porquanto, se nela nada reconhecemos da divina beneficência, já nos sentimos culpados não de pouca ingratidão em relação ao próprio Deus. De modo especial, porém, ela deve ser aos fiéis testemunho da divina benevolência, uma vez que toda ela se destina a promover-lhes a salvação. Pois antes que nos exiba abertamente a herança da glória eterna, ele deseja declarar-se nosso Pai mediante evidências menores: são estas as bênçãosque ele nos quer conferir diariamente. Portanto, uma vez que esta vida nos serve para compreender a bondade Deus, porventura a desdenharemos como se não contivesse nenhuma migalha de bem? Portanto, é necessário que nos revistamos desse senso e disposição para que a contemos entre as dádivas da benignidade divina, as quais de modo nenhum devem ser rejeitadas. Ora, se faltassem testemunhos da Escritura, os quais são mui numerosos e mui claros, até mesmo a própria natureza nos exorta a que rendamos ação de graças ao Senhor, porque ele nos tem conduzido à sua luz; porque seu uso nos concede; porque prodigaliza todos os meios necessários para conservá-la. E essa razão se torna muito maior se refletirmos que nesta vida Deus nos está, de certo modo, preparando para a glória do reino celeste. Pois assim ordenou o Senhor que aqueles que um dia serão coroados no céu, antes disso enfrentem os embates na terra, para que não celebrem o triunfo, caso não sejam superadas as dificuldades da guerra e alcançada a vitória. Ademais, há ainda outra razão, a saber: que, mercê de variados benefícios, começamos nesta vida a degustar a doçura da benignidade divina, para que nossa esperança e desejo se agucem a fim de buscar-lhe a plena revelação. Quando se estabelece isto: que é em virtude da clemência divina que vivemos a vida terrena, e que por isso lhe estamos obrigado, importa que sejamos assim lembrados e agradecidos, então a propósito desceremos a considerar-lhe a misérrima condição, para que de fato nos desvencilhemos de sua excessiva paixão, à qual, como foi dito, por natureza nos inclinamos espontaneamente.

João Calvino