Com efeito, entre estes dois extremos não há meio termo: ou não fazemos caso,
absolutamente, dos bens do mundo, ou por força estaremos ligados a eles por um
amor desordenado.141 Conseqüentemente, se alguma preocupação existe em nós pela
eternidade, importa que, diligentemente, façamos isto: nos desvencilhemos desses
grilhões maléficos. Ademais, uma vez que a presente vida tem muitos afagos com
que nos engodam com adulação, muita expressão de amenidade, graça, doçura com
que ela prazenteiramente nos afaga, é grandemente de nosso interesse que sejamos
dissuadidos de quando em quando, para que não sejamos fascinados por tais seduções.
Agora pergunto: que aconteceria se aqui fruíssemos de perpétua afluência de
benesses e felicidade, quando não podemos dos constantes acicates dos males ser
suficientemente despertados a ponderar sua miséria? Que a vida humana se assemelha
à fumaça [Sl 102.3] ou à sombra [Sl 102.11], é óbvio não apenas aos letrados,
mas até mesmo o comum dos homens não tem nenhum provérbio mais repisado. E
porque via ser coisa sobremodo útil de saber-se, o celebraram em muitos ditos insignes.
Entretanto, quase nada há que mais negligentemente consideremos, ou menos
lembremos. Pois empreendemos tudo como se quiséssemos estabelecer para nós a
imortalidade na terra. Se algum funeral está a realizar-se, ou estamos andando por
entre sepulcros, visto que aos olhos então se nos depara a imagem da morte, confesso
que filosofamos eloqüentemente a respeito da transitoriedade desta vida. Ainda
que nem a isso fazemos sempre, porque na maioria das vezes todas essas coisas em
nada nos afetam. Quando, porém, isso acontece, é momentânea esta filosofia de que
se desvanece tão logo viramos as costas e não deixa após si sequer o mínimo vestígio
de recordação, enfim, ocorre não de outro modo que o aplauso teatral em algum espetáculo engraçado. Ora, esquecidos não apenas da morte, mas até mesmo de nossa
própria mortalidade, como se a seu respeito jamais chegasse até nós nenhum rumor,
somos reconduzidos à supina confiança de nossa imortalidade terrena. Entrementes,
se alguém relembra o provérbio: “o homem é um animal [ëphémëron – efêmero]; de
um dia”, certamente o admitimos, porém sem dar-lhe nenhuma atenção, de sorte que,
não obstante, em nossa mente permanece fixo o pensamento de perpetuidade.
Portanto, quem haverá de negar que a todos nós é de suma importância não apenas
sermos admoestados com palavras, mas de quaisquer experiências pelas quais pode
acontecer de sermos convencidos quanto à mísera condição da vida terrena, uma vez
que, mesmo quando convencidos, dificilmente cessamos de abismar-nos de depravada
e estulta admiração ante sua visão, como se em si contivesse a meta última do que
é bom? Ora, se Deus tem necessariamente de instruir-nos, de nossa parte temos o
deverde dar-lhe ouvidos enquanto nos chama e nos sacode o torpor, para que, desprezado
o mundo, nos apliquemos, de todo o coração, à meditação sobre a vida futura.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32