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domingo, 9 de setembro de 2018

O ENCANTO E APEGO COM QUE NOS PRENDEMOS À VIDA PRESENTE NOS OFUSCAM A VISÃO DA VIDA FUTURA

Com efeito, entre estes dois extremos não há meio termo: ou não fazemos caso, absolutamente, dos bens do mundo, ou por força estaremos ligados a eles por um amor desordenado.141 Conseqüentemente, se alguma preocupação existe em nós pela eternidade, importa que, diligentemente, façamos isto: nos desvencilhemos desses grilhões maléficos. Ademais, uma vez que a presente vida tem muitos afagos com que nos engodam com adulação, muita expressão de amenidade, graça, doçura com que ela prazenteiramente nos afaga, é grandemente de nosso interesse que sejamos dissuadidos de quando em quando, para que não sejamos fascinados por tais seduções. Agora pergunto: que aconteceria se aqui fruíssemos de perpétua afluência de benesses e felicidade, quando não podemos dos constantes acicates dos males ser suficientemente despertados a ponderar sua miséria? Que a vida humana se assemelha à fumaça [Sl 102.3] ou à sombra [Sl 102.11], é óbvio não apenas aos letrados, mas até mesmo o comum dos homens não tem nenhum provérbio mais repisado. E porque via ser coisa sobremodo útil de saber-se, o celebraram em muitos ditos insignes. Entretanto, quase nada há que mais negligentemente consideremos, ou menos lembremos. Pois empreendemos tudo como se quiséssemos estabelecer para nós a imortalidade na terra. Se algum funeral está a realizar-se, ou estamos andando por entre sepulcros, visto que aos olhos então se nos depara a imagem da morte, confesso que filosofamos eloqüentemente a respeito da transitoriedade desta vida. Ainda que nem a isso fazemos sempre, porque na maioria das vezes todas essas coisas em nada nos afetam. Quando, porém, isso acontece, é momentânea esta filosofia de que se desvanece tão logo viramos as costas e não deixa após si sequer o mínimo vestígio de recordação, enfim, ocorre não de outro modo que o aplauso teatral em algum espetáculo engraçado. Ora, esquecidos não apenas da morte, mas até mesmo de nossa própria mortalidade, como se a seu respeito jamais chegasse até nós nenhum rumor, somos reconduzidos à supina confiança de nossa imortalidade terrena. Entrementes, se alguém relembra o provérbio: “o homem é um animal [ëphémëron – efêmero]; de um dia”, certamente o admitimos, porém sem dar-lhe nenhuma atenção, de sorte que, não obstante, em nossa mente permanece fixo o pensamento de perpetuidade. Portanto, quem haverá de negar que a todos nós é de suma importância não apenas sermos admoestados com palavras, mas de quaisquer experiências pelas quais pode acontecer de sermos convencidos quanto à mísera condição da vida terrena, uma vez que, mesmo quando convencidos, dificilmente cessamos de abismar-nos de depravada e estulta admiração ante sua visão, como se em si contivesse a meta última do que é bom? Ora, se Deus tem necessariamente de instruir-nos, de nossa parte temos o deverde dar-lhe ouvidos enquanto nos chama e nos sacode o torpor, para que, desprezado o mundo, nos apliquemos, de todo o coração, à meditação sobre a vida futura.

João Calvino