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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

AINDA QUE POSSAMOS VANGLORIAR-NOS DE JUSTIÇA E RETIDÃO DIANTE DOS HOMENS, E EM RELAÇÃO A ELES, ESSA NOSSA RETIDÃO NADA É DIANTE DE DEUS

Deveríamos elevar nossos olhos para este ponto, para que pudéssemos aprender a tremer em vez de futilmente exultar. Certamente é fácil, enquanto a comparação se atém aos homens, cada um crendo possuir algo que justifique desprezar os demais. Quando, porém, nos aproximamos de Deus, essa nossa confiança, mais depressa que uma palavra, desaba e se desvanece. O mesmo que sucede à nossa alma em relação a Deus, também sucede ao corpo em relação ao céu visível; pois enquanto o homem se entretece a olhar as coisas adjacentes, crê que sua vista é excelente e mui aguda; mas se a dirige para o sol, de tal maneira ficará deslumbrada e ofuscada pelo excesso de fulgor, que sente em sua visão não menos debilidade do que sentia força na contemplação das coisas cá de baixo. Não nos iludamos, pois, com vã confiança: ainda que aos demais homens nos julguemos iguais ou superiores, isso nada é diante de Deus, a quem pertence o arbítrio e o conhecimento. De modo que, se a presunção não pode ser domada com tais advertências, teremos a mesma resposta dada aos fariseus: “Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens ... porque o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominável” [Lc 16.15]. Vai agora e te glories soberbamente de tua justiça entre os homens, enquanto Deus no céu a abomine! Mas, o que dizem os servos de Deus verdadeiramente instruídos por seu Espírito?: “Não entres em juízo com teu servo, porque à tua vista não será justificado nenhum vivente” [Sl 143.2]. Ainda outro, embora em sentido um pouco diferente: “Como se justificaria o homem para com Deus? Se quiser contender com ele, nem a uma de mil coisas poderá responder” [Jó 9.2, 3]. Aqui já ouvimos com plena clareza qual é a justiça de Deus, a qual, de fato, não se satisfará com nenhuma obra humana, e que nos acusará de mil crimes, sem que possamos dar satisfação e lavar-nos de um só deles. Certamente que Paulo, esse instrumento escolhido de Deus, conceberá na mente tal justiça, quando professa que não tinha consciência de nada contra si, porém nem por isso era justificado [1Co 4.4].

João Calvino