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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

PARA AGOSTINHO E BERNARDO, A JUSTIFICAÇÃO ESTÁ CALCADA SOMENTE NOS MÉRITOS DE CRISTO

Exemplos como esses subsistem não só nas Sagradas Letras; ao contrário, todos os escritores mostram que o consenso era este. Assim, Agostinho: “De todos os piedosos”, diz ele, “a gemerem sob este fardo da carne corruptível, e nesta fraqueza de vida, uma só é a esperança: que temos um Mediador, Jesus Cristo, o justo, e ele é a propiciação por nossos pecados” [1Tm 2.5, 6].175 Que significa isto? Se esta é sua única esperança, onde fica a confiança nas obras? Ora, quando afirma ser única, não deixa lugar a nenhuma outra. Igualmente Bernardo: “Falando francamente, onde têm os fracos seguro e firme descanso e segurança, senão nas chagas do Salvador? Eu tanto mais seguro habito ali quanto mais poderoso é ele para salvar. O mundo geme, o corpo comprime, o Diabo arma ciladas; não caio, porque estou solidamente assentado na rocha firme. Cometi grave pecado. A consciência se turba, porém não haverá de perturbar-se, porque me lembrarei das chagas do Senhor.” Destas considerações conclui ele em outra ocasião: “Portanto, meu mérito é a compaixão do Senhor. Não sou, evidentemente, desprovido de mérito enquanto não lhe faltar compaixões; visto que, se muitas são as misericórdias do Senhor, logo me fartarei igualmente de méritos. Porventura cantarei minhas justiças? Ó Senhor, só me lembrarei de tua justiça, pois ela é também a minha, ou, seja, ele se fez minha justiça da parte de Deus. De igual modo, em outro lugar: “Este é todo o mérito do homem, se ele puser toda sua esperança naquele que torna salvo o homem todo.” Semelhantemente, retendo para si a paz, ele deixa a glória para Deus: “A ti”, diz ele, “permaneça intata a glória; comigo bem estará, se eu tiver a paz. Renego inteiramente à glória, para que não venha perder também o que me é oferecido, caso seja eu usurpado do que não é meu.”178 Ainda mais francamente, em outro lugar: “Por que a Igreja está solícita acerca de méritos, à qual, em relação ao propósito de Deus, sobeja mais firme e mais segura razão de gloriar-se? Desse modo, não há razão para que perguntes de que méritos esperamos os benefícios, principalmente quando ouves o Profeta: ‘Não o farei por vossa causa; ao contrário, por minha causa’, diz o Senhor [Ez 36.22, 32]. Basta, pois, para merecer, saber que os méritos não bastam; mas como para merecer basta não presumir de méritos, também carecer de méritos basta para a condenação.”
O fato de usar ele a palavra méritos livremente em lugar de boas obras, é preciso desculpá-lo em virtude do uso da época. Mas, afinal,seu intento foi assustar os hipócritas, os quais, em seu ímpeto de pecar, agem desavergonhadamente contra a graça de Deus, como logo a seguir se explica: “Feliz a Igreja à qual não faltam nem méritos sem presunção, nem presunção sem méritos. Ela tem de que presumir, não, porém, méritos. Ela tem méritos, mas para merecer, não para presumir. O próprio não presumir, por acaso não é merecer? Logo, tanto mais seguramente presume, quanto mais não presume, aquela para a qual há ampla razão de gloriar-se: as muitas misericórdias do Senhor.”

João Calvino