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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

AOS OLHOS DE DEUS OS PRETENSOS MÉRITOS HUMANOS NADA REPRESENTAM PARA NOSSA JUSTIFICAÇÃO

Esta é a verdade. As consciências sensibilizadas sentem que este éo único refúgio de salvação em que podem respirar com segurança, quando se tem a ver com o juízo de Deus. Ora, se as estrelas, que à noite pareciam de intenso fulgor, perdem seu resplendor à vista do sol, o que pensamos haverá de acontecer, ainda à mais rara inocência do homem, quando for comparada à pureza de Deus? Pois esse escrutínio haverá de ser muito severo, o qual penetrará até às mais recônditas cogitações do coração, cada uma delas, no dizer de Paulo: “trará à luz as coisas ocultas das trevas, e manifestará os desígnios do coração” [1Co 4.5], o qual compelirá a consciência, esquiva e relutante, a confessar todas as coisas que até agora se desvaneceram de nossa memória. Nosso acusador, o Diabo, cônscio de todas as abominações, a perpetrar as quais nos impeliu, nos pressionará. Ali de nada aproveitarão os aparatos externos das boas obras, que agora tanto se estimam. Somente a sinceridade da vontade estará presente. Pelo que a hipocrisia, não apenas aquela mercê da qual o homem, a sentir-se culposo perante Deus, timbra por ostentar diante dos homens, como também aquela mercê da qual cada um a si se impõe diante de Deus, já que somos tão propensos a lisonjear-nos e a adular-nos, confusa tombará, por mais que agora se ensoberbeça com audácia mais do que ébria. Aqueles que a espetáculo desta natureza não dirigem a atenção de fato podem, para o momento, prazerosa e complacentemente engendrar justiça para si, mas uma justiça que, no juízo de Deus, lhes será bem depressa subtraída, não de outro modo que as grandes riquezas acumuladas em sonho se nos desvanecem quando despertados. Entretanto, aqueles que, como se sob a vista de Deus, cogitarão seriamente da verdadeira norma da justiça, esses por certo descobrirão que todas as obras dos homens, se forem estimadas em sua dignidade, nada mais são do que imundícies e sordidez, e a que comumente se tem por justiça, essa diante de Deus é pura iniqüidade; a que se considera integridade não passa de poluição; a que se julga glória outra coisa não é senão ignomínia.

João Calvino