Não sintamos embaraço em descer desta contemplação da perfeição divina, sem
lisonjas ou cego impulso de amor próprio, para considerarmos a nós mesmos. Pois
não é de admirar se neste aspecto somos tão profundamente cegos, quando nenhum de
nós se guarda da pestilenta indulgência de nosso ego, o que a Escritura proclama ser
por natureza inerente a todos nós. “Todo caminho do homem”, diz Salomão, “é reto a
seus olhos” [Pv 21.2]. De igual modo: “Todos os caminhos do homem parecem limpos
a seus olhos” [Pv 16.2]. E então? Porventura é o homem absolvido por essa miragem?
Certamente que não, como acrescenta Salomão no mesmo lugar: “O Senhor
pesa os corações” [Pv 16.2], isto é, enquanto o homem se acaricia em razão da máscara
exterior de justiça que enverga, nesse mesmo tempo, em sua balança, o Senhor pesa
a impureza recôndita do coração. Portanto, quando de fato nenhum proveito se colha
de tais lisonjas, não nos iludamos injustificadamente para nossa ruína.
Entretanto, para que nos examinemos adequadamente, é necessário que nossa
consciência seja apresentada ao tribunal de Deus. Pois a luz é absolutamente necessária
para os envoltórios de nossa depravação sejam postos a descoberto, os quais,
de outra forma, se ocultam demasiado profundamente. Então, afinal, veremos claramente
o que significamestas palavras: “Como, pois, seria justo o homem para com
Deus, e como seria pura aquele que nasce de mulher? ... o homem, que é um verme”
[Jó 25.4, 6]; “Quanto mais abominável e corrupto é o homem que bebe a iniqüidade
como água” [Jó 15.16]; “quem do imundo tirará o puro? Ninguém” [Jó 14.4]. Então,
experimentaremos também o mesmo que de si mesmo dizia Jó: “Se eu me justificar,
minha boca me condenará; se for perfeito, então ela me declarará perverso” [Jó
9.20, 21]. Ora, não se limitou a uma só época, mas a todas, o que o Profeta de
outrora se queixava acerca de Israel, ou, seja, que todos haviam se desgarrado como
ovelhas, cada um declinando-se para seu próprio caminho [Is 53.6]. Porque com
essas palavras Isaías abarca a todos a quem a graça da redenção haveria de alcançar.
O rigor desse exame deve continuar até que haja domado e quebrantado todos os
nossos brios,182 e desse modo nos tenha preparado para receber a graça de Cristo.
Engana-se, pois, aquele que se considera em condiçõesde frui-la, a não ser que haja
antes alijado toda altivez de espírito. Conhecida é esta passagem: “Deus confunde
os soberbos, porém dá graça aos humildes” [Pv 3.34; Tg 4.6; 1Pe 5.5].
João Calvino