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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

PARA FAZER JÚS À JUSTIFICAÇÃO DIVINA IMPÕE-SE HUMILDADE REAL, ISTO É, O SENDO DE TOTAL DEMÉRITO DIANTE DE DEUS

Qual, porém, a maneira de humilhar-nos, senão que, totalmente despidos e carecentes, demos lugar à misericórdia de Deus? Pois não julgo haver humildade se pensamos que ainda nos resta algo. E até aqui têm ensinado perniciosa hipocrisia os que jungiram, a um só tempo, estas duas coisas: que devemos sentir-nos humildes acerca de nós mesmos diante de Deus e ter em alguma consideração nossa própria justiça. Ora, se confessamos diante de Deus o contrário do que sentimos, então lhe mentimos impiamente. Não podemos, porém, sentir como convém, sem que se esmigalhe totalmente tudo quanto em nós parece passível de glória. Portanto, quando ouves o Profeta dizendo que a salvação foi preparada para o povo humilde e abatimento para os olhos dos soberbos [Sl 18.27], considera, em primeiro lugar, que não se dá acesso à salvação, a menos que seja posta de lado toda soberba e seja assumida plena humildade; em segundo lugar, que essa humildade não é certa modéstia, mercê da qual cedas ao Senhor um fio de cabelo de teu direito, assim como humildes são chamados diante dos homens os que não se conduzem altivamente, nem insultam aos outros, quando, todavia, se estribam em alguma consciência de sua própria excelência; pelo contrário, ela é a submissão não fingida de uma alma seriamente consternada pelo senso de sua miséria e carência, pois é assim que ela é descrita por toda parte na Palavra de Deus. Quando o Senhor assim fala em Sofonias: “Removerei de ti o que exulta e deixarei no meio de teu povo um remanescente, o aflito e o pobre, e estes esperarão no Senhor” [Sf 3.11, 12], porventura ele não põe plenamente à mostraquem de fato são os humildes? Evidentemente, aqueles que jazem aflitos pelo reconhecimento de sua pobreza. Por outro lado, aos soberbos chama exultantes, porque os homens felizes com a prosperidadecostumam exultar. Aos humildes, porém, a quem resolve salvar, nada lhes resta senão esperarem no Senhor. Assim também em Isaías: “Mas, para quem olharei, senão para o pobrezinho, o contrito de espírito e que treme de minhas palavras?” [Is 66.2]. Igualmente: “O Excelso e Sublime, aquele que habita a eternidade, e Santo é seu nome, aquele que habita no lugar excelso e no santo lugar, e com o contrito e humilde de espírito, para vivificar o espírito dos humildes e o coração dos contritos” [Is 57.15]. Quando ouves com tanta freqüência a palavra contrição, entendes ser uma ferida do coração que não permite que se levante o homem prostrado por terra. Importa que teu coração seja ferido com tal contrição, caso queiras, conforme a sentença de Deus, ser exaltado com os humildes. Se isso não acontece, para tua vergonha e desonra serás humilhado pela potente mão de Deus.

João Calvino