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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

QUARTA REGRA DO VIVER CONDIGNO: EM TODOS OS ATOS LEVAR EM CONTA A VOCAÇÃO OU ORDENAÇÃO DIVINA PELA QUAL SE DEVE PAUTAR

Finalmente, é preciso levar em conta isto: que o Senhor ordena a cada um de nós, em todas as ações da vida, que atentemos para sua vocação. Pois ele sabe com quão grande inquietude se inflama o engenho humano, de quão inconstante volubilidade cada um é levado para cá e para lá, quão ávida é sua ambição em abraçar diversas coisas a um só tempo. Portanto, para que através de nossa estultícia e temeridade, de cima abaixo, não se misturem todas as coisas, Deus ordenou a cada um seus deveres em gêneros distintos de vida. E para que alguém não ultrapassasse temerariamente seus limites, chamou vocações a essas modalidades de viver. Daí, para que não sejam levados em volta às cegas por todo curso da vida, a cada um foi atribuída pelo Senhor, como se fosse um posto de serviço, sua forma de viver. Essa distinção, porém, é de tal forma necessária, que todas as nossas obras são estimadas diante de Deus através dela; de fato, com freqüência, de um modo bem diferente que segundo o juízo da razão humana e filosófica. Nenhum feito é tido por mais nobre, até mesmo entre os filósofos, que tentar livrar a pátria da tirania. Todavia, é condenado abertamente pela voz do Árbitro celeste o cidadão privado que tenha deitado mão em um tirano [1Sm 24.7-11; 26.9]. Não quero, contudo, deter-me em citar exemplos. É bastante sabermos que a vocação do Senhor é em tudo o princípio e fundamento do agir correto, à qual quem não se reportar, jamais se aterá ao caminho reto em suas atividades. Talvez poderá ele às vezes engendrar algo louvável na aparência; entretanto, o que quer que isso seja à vista dos homens, será rejeitado diante do trono de Deus. Ademais, nenhuma harmonia haverá entre as próprias partes adversas da vida. Conseqüentemente, a vida te será então ordenada o melhor possível, quando te dirigires a este escopo, porquanto alguém nem mesmo tentará, impelido pela própria temeridade, mais do que sua vocação permitir, uma vez que saberá não ser lícito exceder seus limites. Quem haverá de ser obscuro de condição, de cultivar sua vida individual não pesarosamente, de modo que não deserte a posição em que for divinamente colocado. Por outro lado, este não será um fraco alívio dos cuidados, labores, inquietações e outros fardos, enquanto cada um reconhecer que em todas estas coisas Deus é seu guia. De melhor grado o magistrado desempenhará suas funções, um chefe de família se restringirá ao dever, cada um em seu gênero de vida suportará e tragará as desvantagens, as preocupações, os aborrecimentos, as angústias, quando forem persuadidos de que a cada um seu fardo foi imposto por Deus. Daqui também brotará insigne consolação, ou, seja, desde que obedeças à tua vocação, nenhuma obra haverá de sertão ignóbil e vil que diante de Deus não resplandeça e seja tida por valiosíssima.

João Calvino