Em outro lugar [Tt 2.11-14], se bem que de forma sucinta, ele expõemais distintamente,
uma a uma, as partes da vida bem regrada: “Resplandeceu a graça de Deus,
trazendo salvação a todos os homens, instruindo-nos a que, abandonada a impiedade
e as concupiscências mundanas, vivamos no presente mundosóbria, justa e piamente,
aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória de nosso grande
Deus e Salvador, Jesus Cristo, que se deu por nós, para nos redimir de toda a iniqüidade
e purificasse para si um povo especial, zeloso de boas obras.”
Ora, depois que, para animar-nos, o Apóstolo antepôs a graça de Deus a fim de
aplanar-nos o caminho para adorarmos verdadeiramente a Deus, remove os dois
obstáculos que sobretudo nos travam os passos, a saber, a impiedade, a que somos
desmedidamente inclinados por natureza, então os desejos mundanos, que se estendem
ainda mais. E por impiedade, de fato, não apenas tem em mente as superstições,
mas entende também tudo quanto se põe em conflito com o sério temor de
Deus. Os desejos do mundo, porém, equivalem a tanto quanto às paixões da carne
[Gl 5.16; Ef 2.3; 2Pe 2.18:1Jo 2.16]. E assim, em relação a ambas as tábuas da lei,
ordena que nos descartemos de nossa natureza e refuguemos a tudo quanto se relaciona
com a razão e a vontade.
Agora, a três membros – sobriedade, justiça e piedade – ele reduz todas as ações
da vida, das quais a sobriedade não denota dubiamente tanto a castidade e a temperança,
quanto o puro e frugal uso dos bens temporais, e a resignação em suportar a
pobreza; a justiça, porém, abrange todos os deveres de eqüidade, e assim se renda a
cada um o que é seu [Rm 13.7]; segue a piedade, ou, seja, desvencilhados das corrupções do mundo, com Deus nos une em verdadeira santidade. Estas três partes,
quando são ligadas entre si por vínculo indissolúvel perfazem a real perfeição. Mas,
uma vez que nada é mais difícil, ainda após dizer-se adeus à razão da carne e subjugados,
ainda mais, renunciados seus desejos, que dedicar-nos a Deus e aos irmãos e
por entre a sordidez da terra anelar uma vida angelical, para que o ânimo nos desvencilhe
de todos os laços, Paulo nos estimula à esperança da bem-aventurada imortalidade,
advertindo-nos que estamos a pelejar não em vão, visto que, como Cristo
apareceu uma vez como Redentor, assim, em sua vinda final, manifestará o fruto da
salvação por ele operada. E deste modo ele dissipa todos os engodos que nos enredilham
para não aspirarmos, como convém, à glória celestial; ainda mais, ele ensina
que devemos peregrinar no mundo de tal maneira que não nossa herança celestial
não pereça ou se desvaneça.
João Calvino