Este embate que, enquanto se esforçam à paciência e à moderação, os fiéis mantêm
contra o senso natural da dor, Paulo o descreveu magnificamente nestas palavras:
“Somos em todas as coisas atribulados, porém não nos prostramos angustiados; somos
afligidos, porém não nos desesperamos; sofremos perseguição, porém não somos
nela abandonados; somos prostrados, porém não sucumbimos” [2Co 4.8, 9].
Vêsque levar pacientemente a cruz não significa tornar-se absolutamente insensível
e ser privado de toda sensação de dor, da maneira como outrora os Estóicos
estultamente descreveram o homem magnânimo: aquele que, despida a humanidade,
seria afetado pelas coisas adversas da mesma forma que pelas prósperas; pelas
tristes exatamente como pelas alegres; com efeito, aquele que, à semelhança de uma
pedra, de coisa alguma seria afetado. E que proveito fruíram eles dessa sublimada
sabedoria? Na verdade, pintaram um simulacro de paciência que jamais foi achado
entre os homens, e tampouco pode existir. Antes, pelo contrário, enquanto querem
ter uma paciência demasiado exata e precisa, baniram o poder da vida humana.
Ora, há também entre cristãos uns novos estóicos, para quem é vicioso não
apenas gemer e chorar, mas até mesmo contristar-se e estar apreensivo. E na verdade,
esses paradoxos procedem na maioria das vezes de homens ociosos que, exercitando-se
mais em especular do que em agir, nada senão paradoxos desse gênero
podem engendrar-nos. Nós, porém, nada temos com essa férrea filosofia que nosso
Mestre e Senhor condenou não apenas com palavra, mas também com seu exemplo.
Ora, ele lamentou e chorou tanto por seus próprios infortúnios quanto pelos de
outros. Nem de outra forma ensinou a seus discípulos: “O mundo”, diz ele, “se
alegrará; vós, porém, pranteareis e lamentareis” [Jo 16.20]. E, para que alguém não
convertesse isso em defeito, de propósito declarado pronunciou “bem-aventurados
os que choram” [Mt 5.4]. Tampouco isso é de admirar! Ora, se todas as lágrimas são
condenadas, que juízo faremos acerca do próprio Senhor, de cujo corpo gotejaram
lágrimas de sangue? [Lc 22.44]. Se todo e qualquer temor é qualificado de incredulidade,
em que conta teremos esse horror de que lemos ter ele sido consternado não
superficialmente? [Mt 26.27; Mc 14.33]. Se toda tristeza desagrada, como agradará
o fato de que ele confessa “minha alma está triste até à morte?” [Mt 26.38].
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32