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domingo, 9 de setembro de 2018

LEVAR A CRUZ, NO QUE RESPEITA ÀS TRISTEZAS E PESARES, NÃO A FRIA IMPASSIBILIDADE DOS ESTÓICOS, MAS A AGUDA SENSIBILIDADE À QUAL SÃO NATURAIS A DOR E A LÁGRIMA

Este embate que, enquanto se esforçam à paciência e à moderação, os fiéis mantêm contra o senso natural da dor, Paulo o descreveu magnificamente nestas palavras: “Somos em todas as coisas atribulados, porém não nos prostramos angustiados; somos afligidos, porém não nos desesperamos; sofremos perseguição, porém não somos nela abandonados; somos prostrados, porém não sucumbimos” [2Co 4.8, 9]. Vêsque levar pacientemente a cruz não significa tornar-se absolutamente insensível e ser privado de toda sensação de dor, da maneira como outrora os Estóicos estultamente descreveram o homem magnânimo: aquele que, despida a humanidade, seria afetado pelas coisas adversas da mesma forma que pelas prósperas; pelas tristes exatamente como pelas alegres; com efeito, aquele que, à semelhança de uma pedra, de coisa alguma seria afetado. E que proveito fruíram eles dessa sublimada sabedoria? Na verdade, pintaram um simulacro de paciência que jamais foi achado entre os homens, e tampouco pode existir. Antes, pelo contrário, enquanto querem ter uma paciência demasiado exata e precisa, baniram o poder da vida humana. Ora, há também entre cristãos uns novos estóicos, para quem é vicioso não apenas gemer e chorar, mas até mesmo contristar-se e estar apreensivo. E na verdade, esses paradoxos procedem na maioria das vezes de homens ociosos que, exercitando-se mais em especular do que em agir, nada senão paradoxos desse gênero podem engendrar-nos. Nós, porém, nada temos com essa férrea filosofia que nosso Mestre e Senhor condenou não apenas com palavra, mas também com seu exemplo. Ora, ele lamentou e chorou tanto por seus próprios infortúnios quanto pelos de outros. Nem de outra forma ensinou a seus discípulos: “O mundo”, diz ele, “se alegrará; vós, porém, pranteareis e lamentareis” [Jo 16.20]. E, para que alguém não convertesse isso em defeito, de propósito declarado pronunciou “bem-aventurados os que choram” [Mt 5.4]. Tampouco isso é de admirar! Ora, se todas as lágrimas são condenadas, que juízo faremos acerca do próprio Senhor, de cujo corpo gotejaram lágrimas de sangue? [Lc 22.44]. Se todo e qualquer temor é qualificado de incredulidade, em que conta teremos esse horror de que lemos ter ele sido consternado não superficialmente? [Mt 26.27; Mc 14.33]. Se toda tristeza desagrada, como agradará o fato de que ele confessa “minha alma está triste até à morte?” [Mt 26.38].


João Calvino