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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O SENSO DE UMA JUSTIFICAÇÃO CALCADA NOS MÉRITOS PESSOAIS INVALIDA A PROMESSA DIVINA

Paulo adiciona também outra consideração: a promessa seria sem valor e ineficaz. Ora, se seu cumprimento dependesse de nosso mérito, quando, afinal, haveríamos de merecer o beneplácito de Deus? Além disso, este segundo elemento deduzse do primeiro, a saber, que na verdade a promessa não se cumprirá, a não ser naqueles em quem existir fé. Portanto, se a fé sofrer um colapso, da promessa não restará nenhum poder: “Por isso, a herança procede da fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme” [Rm 4.16]. Pois ela é sobejamente confirmada quando se apoia na só misericórdia de Deus, visto que a misericórdia e a verdade são perpetuamente unidas entre si por um vínculo, isto é, tudo quantoDeus promete misericordiosamente, também executa fielmente. Assim Davi, antes de pedir para si a salvação segundo a palavra de Deus, em sua misericórdia fixa primeiramente sua causa. “Venham sobre mim”, diz ele, “tuas misericórdias, e tua salvação segundo tua palavra” [Sl 119.76, 77]. E com razão, porquanto não provém de outra parte que Deus seja induzido a prometer, senão de sua mera misericórdia. Conseqüentemente, aqui importa que se firme, e como que se radique profundamente, toda nossa esperança, a saber, não volver os olhos para nossas obras, no intento de se buscar nelas alguma ajuda. Também Agostinho prescreve que se deva assim agir, para que não penses que aqui estamos afirmando algo novo. “Para sempre”, diz ele, “reinará Cristo em seus servos. Pois Deus prometeu isto, Deus disse isto, se achas pouco, Deus jurou isto. Portanto, uma vez que a promessa é firme, não em conformidade com nossos méritos, mas em conformidade com sua misericórdia, ninguém deve proclamar com hesitação aquilo de que não pode duvidar.”188 Bernardo189 também: “Quem poderá ser salvo, dizem os discípulos de Cristo. Ele, porém: Entre os homens, isso é impossível; entretanto, não para Deus [Mt 19.25, 26; Mc 10.27; Lc 18.26, 27]. Esta é toda nossa confiança; esta é a única consolação; esta é toda a razão de nossa esperança. Mas, certos da possibilidade, que dizemos de sua vontade? Quem sabe se de ódio ou de amor porventura seja digno? [Ec 9.1]. Quem conheceu os pensamentos do Senhor, ou quem foi seu conselheiro? [Is 40.13; Rm 11.34]. Aqui faz-se claramente necessário que a fé nos socorra; aqui se impõe que sejamos socorridos pela verdade para que, o que de nósjaz escondido no coração do Pai, seja revelado pelo Espirito; e seu Espírito, testificando, persuada nossos corações de que somos filhos de Deus. Persuada, porém, chamando e justificando graciosamente pela fé, que é como um meio entre a predestinação divina e a glória da vida eterna. Assim concluímos sucintamente: a Escritura mostra que as promessas de Deus não serão firmes, a menos que sejam agarradas com segura confiança da consciência; sempre que houver dúvida ou incerteza, elas se tornam sem valor. Por outro lado declara se descansamos em nossas obras, nada faremos senãotitubear e oscilar. Portanto, ou a justiça necessariamente perecerá, ou as obras não podem ser postas em consideração, senão que somente a fé terá lugar, da qual a natureza é esta: aguçar os ouvidos e fechar os olhos, isto é, que ela esteja fixada somente na promessa, e que a dignidade ou mérito humano seja eliminado do pensamento. Assim se cumpre esse preclaro vaticínio de Zacarias, de que “quando a iniqüidade da terra for purgada, um homem convidará a seu amigo para debaixo de sua vide e para debaixo de sua figueira” [Zc 3.9, 10], querendo dizer o Profeta que não é de outra maneira que os fiéis usufruem de verdadeira paz senão depois de ser obtida a remissão dos pecados. Pois nos profetas deve-se observar esta analogia: quando tratam do reino de Cristo, eles propõem as bênçãos exteriores de Deus como figuras dos bens espirituais. Razão por que também Cristo é chamado o Rei da Paz [Is 9.6] e nossa paz [Ef 2.14], porque ele acalma todas as inquietações da consciência. Caso se indague o modo de fazer-se isso, necessariamente é preciso buscar sacrifício mediante o qual Deus foi aplacado, porque jamais deixará de tremer apavorado todo aquele que não declare ser Deus propiciado por essa expiação única pela qual Cristo susteve sua ira. Enfim, nossa paz não pode ser buscada em outra parte senão nos tormentos de Cristo, nosso Redentor.

João Calvino