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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O USO APROPRIADO DAS BENESSES DESTA VIDA CONSISTE EM QUE GLORIFIQUEM A DEUS E LHE SEJAM REAL AÇÃO DE GRAÇAS

Portanto, fora com essa desumana filosofia que, enquanto das coisas criadas nenhum uso concede senão o necessário, não só nos priva malignamente do lícito fruto da divina beneficência, mas também não se pode aplicar, a menos que, ao homem despojado de toda sensibilidade, o haja reduzido a um tronco de árvore. Contudo, por outro lado, é necessário resistir não menos diligentemente à concupiscência da carne, a qual, salvo se for coibida, corre sem freio, e tem, como já disse, seus sufragadores que, sob pretexto de liberdade concedida, nada há que não lhe permitem. Primeiramente, impõe-se-lhe um freio, se é estatuído que, já que todas as coisas foram criadas para nós, então que reconheçamos seu Autor e com ação de graças lhe magnifiquemos a complacência para conosco. Onde ficam as ações de graças, se com iguarias ou com vinho a tal ponto de empanturres que ou te embotes ou sejas deixado inapto para os deveres da piedade e de tua vocação? Onde fica o reconhecimento de Deus, se tua carne, fervendo a vil paixão por excessiva abundância, infecta a mente com sua impureza, de tal sorte que não possas discernir o que de reto ou digno existe? Onde fica, na indumentária, a gratidão a Deus, se de seu suntuoso adereço admiramos não só a nós próprios, mas até mesmo desprezamos aos outros, se de sua elegância e beleza nos dispomos à impudicícia? Onde fica o reconhecimento de Deus, se as mentes são presas pelo esplendor dessas coisas? Ora, muitos entregam a tal ponto seus sentidos que a mente se prostra sufocada; muitos se comprazem em tal medida no mármore, no ouro, nas pinturas, que se tornam marmorizados, convertem-se, por assim dizer, em metais, se fazem semelhantes às figuras pintadas. Outros se deixam embotar pelo aroma da cozinha ou a fragrância de seus odores, de modo que não têm olfato para nada mais que seja espiritual. Isso mesmo se vê também nas demais coisas. Portanto, é evidente que esta consideração refreia até certo ponto a excessiva liberdade e o abuso dos dons de Deus, confirmando a regra de Paulo de não dar ocasião aos desejos da carne [Rm 13.14], os quais, se concede indulgência, se inflamam sem medida ou contenção.

João Calvino