Portanto, fora com essa desumana filosofia que, enquanto das coisas criadas
nenhum uso concede senão o necessário, não só nos priva malignamente do lícito
fruto da divina beneficência, mas também não se pode aplicar, a menos que, ao
homem despojado de toda sensibilidade, o haja reduzido a um tronco de árvore.
Contudo, por outro lado, é necessário resistir não menos diligentemente à concupiscência
da carne, a qual, salvo se for coibida, corre sem freio, e tem, como já disse,
seus sufragadores que, sob pretexto de liberdade concedida, nada há que não lhe
permitem. Primeiramente, impõe-se-lhe um freio, se é estatuído que, já que todas as
coisas foram criadas para nós, então que reconheçamos seu Autor e com ação de
graças lhe magnifiquemos a complacência para conosco.
Onde ficam as ações de graças, se com iguarias ou com vinho a tal ponto de
empanturres que ou te embotes ou sejas deixado inapto para os deveres da piedade
e de tua vocação? Onde fica o reconhecimento de Deus, se tua carne, fervendo a vil
paixão por excessiva abundância, infecta a mente com sua impureza, de tal sorte
que não possas discernir o que de reto ou digno existe? Onde fica, na indumentária,
a gratidão a Deus, se de seu suntuoso adereço admiramos não só a nós próprios, mas
até mesmo desprezamos aos outros, se de sua elegância e beleza nos dispomos à
impudicícia? Onde fica o reconhecimento de Deus, se as mentes são presas pelo
esplendor dessas coisas? Ora, muitos entregam a tal ponto seus sentidos que a mente
se prostra sufocada; muitos se comprazem em tal medida no mármore, no ouro,
nas pinturas, que se tornam marmorizados, convertem-se, por assim dizer, em metais,
se fazem semelhantes às figuras pintadas. Outros se deixam embotar pelo aroma
da cozinha ou a fragrância de seus odores, de modo que não têm olfato para nada
mais que seja espiritual. Isso mesmo se vê também nas demais coisas. Portanto, é
evidente que esta consideração refreia até certo ponto a excessiva liberdade e o
abuso dos dons de Deus, confirmando a regra de Paulo de não dar ocasião aos
desejos da carne [Rm 13.14], os quais, se concede indulgência, se inflamam sem
medida ou contenção.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32