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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

PRIMEIRA REGRA DO VIVER CONDIGNO: FAZER USO DE TUDO COM DESPRENDIMENTO, SEM AFETAÇÃO, NEM OSTENTAÇÃO, NA PERSPECTIVA DA VIDA CELESTIAL

Mas, nenhum caminho é mais seguro e mais expedito do que aquele que nos resulta do menosprezo da presente vida e da meditação da imortalidade celeste. Ora, daqui seguem-se duas regras: primeira, que os que usam deste mundo sejam dispostos exatamente como se dele não usassem; os que contraem matrimônio, como se o não contraíssem; os que compram, como se não comprassem, como preceitua Paulo [1Co 7.29-31]. Segunda, que saibam suportar a penúria não menos serena e pacientemente, quando se desfruta de abundância moderada. Aquele que prescreve que deves usar deste mundo como se dele não usasses, aniquila não apenas a intemperança da gula na comida e na bebida, a moderada indulgência na mesa, na moradia, na indumentária, a ambição, a soberba, a arrogância, o enfado, como também todo cuidado e predisposição que te afaste ou impeça do pensamento da vida celeste e do zelo de nutrir a alma. De fato, da parte de Catão isto foi dito outrora com verdade: a preocupação da moda é grande; a despreocupação da virtude é maior. E, para usar do provérbio antigo: “Aqueles que estão muito ocupados no cuidado do corpo, quase sempre são negligentes da alma.” Portanto, ainda que em coisas exteriores a liberdade dos fiéis não deva obrigar-se a uma fórmula fixa, contudo, certamente ela está sujeita a esta lei: que sejam complacentes consigo mesmos o mínimo possível; em contrapartida, que instam consigo com perene disposição de alma a amputar toda ostentação de excessiva e supérflua abundância, quanto mais a coibir a desmedida suntuosidade, e que se guardem diligentemente para que não façam dos meios de ajuda para si fatores de entrave.

João Calvino