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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

SEGUNDA E TERCEIRA REGRAS DO VIVER CONDIGNO: SUPORTAR COM RESIGNAÇÃO AS PRIVAÇÕES DA POBREZA, SEM CEDER A ARROGANTE ALTIVEZ EM VINDA A ABUNDÂNCIA, E TER EM CONTA QUE TUDO O QUE TEMOS SÃO BENESSES DE DEUS CONFIADAS A NOSSA MORDOMIA

Uma segunda regra será que, aqueles a quem os recursossão limitados e escassos, saibam carecer deles pacientemente, para que não sejam atormentados por moderada cobiça. Aqueles que mantém essa moderação têm progredido não modestamente na escola do Senhor. Pelo contrário, o que neste ponto nada tenha aproveitado, dificilmente poderá provar que é discípulo de Cristo. Ora, além do fato de que muitos outros vícios acompanham o desejo das coisas terrenas, aquele que suporta a penúria impacientemente, na abundância também quase sempre manifesta a enfermidade contrária. Quero dizer que aquele que se envergonhar de indumentária modesta, se vangloriará da luxuosa; aquele que não se contentar com uma ceia frugal, se afligirá ante o desejo de um repasto mais lauto; além disso, abusará desenfreadamente dessas suntuosidades, caso venha a apropriar-se delas; aquele que suportar relutantemente e de ânimo inconformado uma condição pobre e humilde, caso se cubra de honras, de modo nenhum deixará de ceder à arrogância. Portanto, todos aqueles em quem o zelo da piedade não é fingido devem lutar por isto: que aprendam, pelo exemplo do Apóstolo, a desfrutar de fartura, a passar fome, a ter abundância e a sofrer penúria [Fp 4.12]. Além disso, a Escritura tem também uma terceira regra pela qual regula o uso das coisas terrenas, acerca da qual dissemos algo quando tratávamos dos preceitos da caridade. Pois declara-se que todas elas nos foram assim outorgadas pela benignidade de Deus e destinadas ao nosso proveito, para que sejam como que depósitos dos quais um dia se haja de prestar conta. Portanto, assim importa administrá-las para que aos ouvidos nos soe constantemente esta ordem: “Dá conta de tua mordomia” [Lc 16.2]. Ao mesmo tempo, deve ocorrer-nos por quem é exigida essaprestação de contas. Deveras é por Aquele que, como tanto recomendou a abstinência, a sobriedade, a frugalidade, a moderação, também execra o luxo, a soberba, a ostentação, a vaidade; a quem não é aprovada outra gestão de benssenão aquela que esteja associada com a caridade; que já de sua boca condenou todos e quaisquer deleites que detraem o coração do homem da castidade e da pureza ou embotam sua mente de caligem.

João Calvino