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domingo, 9 de setembro de 2018

SOFREMOS PERSEGUIÇÃO E DANO POR CAUSA DA JUSTIÇA, O QUE NOS DEVE SER MOTIVO DE GRANDE CONFORTO, NEM DEVEMOS DESANIMAR-NOS ANTE OS MUITOS REVESES DA VIDA

 justiça [Mt 5.10]. Pois afinal deve ocorrer-nos que Deus nos digna de mui grande honra, nos distinguindo assim com a insígnia especial de sua milícia. Reitero que sofrem perseguição por causa da justiça não apenas aqueles que lutam na defesa do evangelho, mas também aqueles que se empenham no patrocínio da justiça, seja qual for ele. Portanto, seja em afirmar a verdade de Deus contra as mentiras de Satanás, seja em assumir a defesa dos bons e inocentes contra as injustiças dos réprobos, necessariamente se incorrerá no desagrado e ódio do mundo, de onde nos ameaça perigo à vida, ou aos bens, ou à honra. Nem por isso a esse ponto nos seja oneroso ou molesto devotar-nos a Deus, nem nos consideremos miseráveis nessas coisas em que, com sua própria boca, ele nos declarou bem-aventurados [Mt 5.10]. É verdade que a pobreza é um infortúnio, se é estimada em si mesma; de igual modo, o exílio, o desprezo, a prisão, a ignomínia; afinal, a própria morte é o extremo de todas as calamidades. Mas quando as bafeja o favor de nosso Deus, nada há nessas coisas que não se converta em grande bem e em nossa felicidade. Portanto, contentemo-nos antes com o testemunho de Cristo do que com a falsa apreciação da carne. Acontecerá, pois, que a exemplo dos Apóstolos nos regozijemos “sempre que nos haja ele de reputar dignos de sofrermos afronta por causa de seu nome” [At 5.41]. E então? Se sendo inocentes e com uma boa consciência somos, pela perversidade dos ímpios, despojados de nossos recursos, por certo que entre os homens estamos reduzidos à penúria, mas na verdade junto a Deus, nos céus, as riquezas nos são assim acrescidas; se com violência somos escorraçados por nossos familiares, com isso somos recebidos mais intimamente na família de Deus; se somos maltratados e desprezados, com isso fincamos mais firmes raízes em Cristo; se somos estigmatizados com opróbrios e ignomínias, com isso estamos num lugar mais amplo no reino de Deus; se somos barbaramente massacrados, assim nos é facultado ingresso na vida bem-aventurada. Envergonhemo-nos, pois, em não estimar o que o Senhor tem em elevada conta, como se fosse inferior aos vãos deleites da presente vida, que num instante se evolam como a fumaça.

João Calvino