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domingo, 9 de setembro de 2018

AS AGRURAS DA CRUZ SÃO DISCIPLINA COM QUE DEUS TRATA NOSSOS PECADOS PASSADOS E NOS CORRIGE À OBEDIÊNCIA GENUINAMENTE FILIAL

Acresce que o Pai clementíssimo tem, necessariamente, não apenas de antecipar-se a acudir-nos em nossa fraqueza, mas ainda de corrigir freqüentemente nossos delitos passados, para que nos contenha em legítima obediência para consigo. Portanto, sempre que somos afligidos, deve acudir-nos de pronto à mente a lembrança de nossa vida pregressa. Assim descobriremos que longe está de havermos praticado devidamente o que fosse digno de castigo dessa espécie. Contudo, tampouco a exortação à paciência deve ser fundamentada principalmente no reconhecimento do pecado. Ora, a Escritura provê consideração muito melhor quando diz que “somos castigados pelo Senhor mediante coisas adversas, para que não sejamos condenados com este mundo [1Co 11.32]. Portanto, também na própria agrura das tribulações impõe-se reconhecer a clemência e benignidade de nosso Pai para conosco, uma vez que então ele de fato não deixa de promover-nos a salvação. Porquanto aflige não para levar à ruína ou fazer perecer; antes, para livrar da condenação do mundo. Esta consideração nos conduzirá ao que a Escritura ensina em outro lugar: “Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, nem te enfades quando fores por ele repreendido, visto que Deus castiga aquele a quem ama e, como um pai ao filho, o abraça” [Pv 3.11, 12]. Quando reconhecemos ser isso a vara do Pai, porventura não é nosso devermostrar-nos como filhos obedientes e dóceis, em vez de, em contumácia, imitarmos a homens desesperados, que se endureceram em seus malefícios? De si afastados, Deus nos lança à ruína, salvo se, mediante correção, nos atraia a si, de sorte que corretamente diga que somos bastardos, não filhos, se vivemos sem disciplina [Hb 12.8]. Portanto, sumamente pervertidos estamos se, enquanto proclama sua benevolência para conosco e o cuidado que tem acerca de nossa salvação, não o podemos suportar. A Escritura ensina que a diferença entre incrédulos e fiéis é esta: aqueles, como escravos de inveterada e requintada maldade, com os castigos só se tornam piores e mais obstinados; estes, como filhos dotados da condição de livres, progridem no caminho do arrependimento. Faz-se necessário agora escolher em qual das duas classes preferes estar. Como, porém, já se falou desta matéria em outro lugar, contente em havê-la abordado aqui apenas sumariamente, porei fim a esta consideração.

João Calvino