Total de visualizações de página

domingo, 9 de setembro de 2018

A DIRETRIZ BÍBLICA DA VIDA VERDADEIRAMENTE CRISTÃ É A RENÚNCIA PESSOAL E A DEDICAÇÃO AO BEM DO PRÓXIMO

Quanta dificuldade encerra o cumprimento da obrigação de buscar-se o benefício do próximo! A não ser que abdiques à consideração pessoal e te despojes de timesmo, nada aqui realizarás. Pois, como exibirás as obras que Paulo ensina na área da caridade a não ser que renuncies a ti mesmo, para que te dediques totalmente aos outros? “A caridade”, diz o Apóstolo, “é paciente, benigna, não insolente, não desdenhosa, não inveja, não se ensoberbece, não busca o que é seu, não se irrita” etc. [1Co 13.4, 5]. Caso se requeira somente isto – que não busquemos o que é nosso –, ainda assim não seria pouco o esforço que teríamos que fazer, pois de tal modo nossa natureza nos inclina ao amor egoístico, que não consente tão facilmente que nos despreocupemos conosco mesmos para atender diligentemente aos interesses alheios; mais ainda, que com firme propósito abramos mão de nosso direito para que outros desfrutem dele. A Escritura, porém, para nos conduzir pela mão a isto, nos adverte que tudo quanto obtemos da mercê do Senhor nos é confiado com esta condição: que se destine ao bem comum da Igreja, e por isso o uso legítimo de todas as graças consiste em compartilhar liberal e generosamente com os outros. Nenhuma regra mais certa, nenhuma exortação mais sólida para mantê-la, se podia cogitar do que onde somos ensinados que todos os dotes de que somos possuidoressão dádivas de Deus, creditadas à nossa confiança com esta condição: que sejam administradas em beneficio do próximo [1Pe 4.10]. A Escritura, no entanto, vai ainda mais longe, quando as compara às funções com que os membros do corpo humano foram dotados [1Co 12.12-27]. Nenhum membro tem sua função visando a si próprio, nem a aplica para uso privado; pelo contrário, libera-a aos membros associados, não para extrair daí qualquer vantagem, senão a que procede do proveito comum de todo o corpo. E assim o homem piedoso tudo quanto possa fazer, então que o faça em benefício dos irmãos, para si particularmente não pensando em si mesmo, senão buscando o que produz a comum edificação da Igreja. Que esta, pois, nos seja a regra para a benevolência e beneficência: tudo quanto Deus nos dispensou com que possamos assistir ao próximo, somos disso mordomos, mordomos que estão obrigados a prestar conta de sua mordomia. Essa, afinal, é sobretudo a mordomia correta: a que se amolda à norma do amor. Daí resultará que não só juntaremos ao cuidado de nossa própria utilidade a diligência em fazer o bem ao próximo, mas que também subordinaremos nosso proveito ao dos demais. E para que não nos escapasse que essa é a lei da correta administração de todos os dons que auferimos de Deus, até mesmo nas mínimas dádivas de sua benignidade ele a aplicou nos tempos antigos. Pois ordenou que lhe fossem oferecidas as primícias das colheitas, mercê das quais o povo testificava que não lhe era próprio tomar para si qualquer fruto dentre os bens que não lhe foram previamente consagrados [Ex 22.29; 23.19]. Ora, se as dádivas de Deus afinal nos são assim santificadas, depois que de nossa mão as dedicamos a seu próprio autor, é evidente ser celerado abuso o uso de não efetuar dedicação desta natureza. Contudo, em vão porfiarias por enriqueceres ao Senhor fazendo-o participante de tuas coisas. Logo, como tua benignidade não pode chegar até ele, ela deve ser exercida, como diz o Profeta. “para com seus santos que estão na terra” [Sl 16.3], e por isso as esmolas são comparadas a oblações sagradas, de sorte que correspondam agora a essas ordenanças da lei[2Co 9.5, 12; Hb 13.16].

João Calvino