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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A NATURAL PRESUNÇÃO, ARROGÂNCIA, DESPEITO E INSOLÊNCIA COM QUE ENCARAMOS AO PRÓXIMO, E A HUMILDADE QUE, AO NEGARMOS A NÓS MESMOS, DEVE, SOBRETUDO, CARACTERIZAR-NOS O TRATO

Nestas palavras, pois, percebemos que a negação pessoal na verdade mira, em parte, aos homens; e de fato, em parte e principalmente, a Deus. Portanto, quando a Escritura nos ordena tratar assim os homens, que os prefiramos em honra a nós mesmos [Fp 2.3], que ao buscar seus interesses nos apliquemos sinceramente por inteiro [Rm 12.10], ela nos dá esses mandamentos dos quais nosso ânimoestá muito longe de ser capaz, a não ser se antes for esvaziado do senso natural. Ora, com que cegueira todos nos arrojamos ao amor egoístico, a cada um parecendo ter justo motivo de orgulhar-se de si próprio, porém, em comparação a si, a todos os demais desprezar. Se Deus nos propiciou algum dom inestimável, firmados nisso de repente elevamos nosso ânimo, não só nos intumescemos, mas inclusive quase nos explodimos de orgulho. Os vícios, nos quais nos saturamos, não só os ocultamos cuidadosamente aos outros, mas ainda nos lisonjeando, imaginando-os como algo leve e insignificante, às vezes até mesmo os afagamos como sendo virtudes. Os mesmos dotes que admiramos em nós, se aparecem nos outros, ou até mesmo se mostram superiores, para que não sejamos compelidos a ceder-lhos, em nossa mesquinhez os depreciamos e menosprezamos. Se por outro lado há neles defeitos, não contentes em frisá-los com severa e acre animosidade, odiosamente os exageramos. Daqui nasce essa insolência, em virtude da qual cada um de nós, como se estivesse isento da condição comum e da lei à qual todos estamos sujeitos, quer ser tido como superior aos demais, e sem excetuar a ninguém, menospreza a todos e de ninguém faz caso, como se todos lhe fossem interiores. Os pobres cedem ante os ricos, os plebeus ante os nobres, os servos ante os senhores, os indoutos ante os letrados, porém ninguém há que não nutra interiormente algum conceito de sua excelência pessoal. Desse modo, a si adulando, no peito, um a um, os homens engendram um como que reino, pois, em a si arrogando o que bem lhes apraz, movem censura acerca do caráter e dos costumesdos outros; porém, se houver necessidade de se chegar a discussão aberta, aí o veneno se destila. Ora, de fato muitos manifestamalguma gentileza sempre que todas as coisas fruem agradáveis e aprazíveis; em contrapartida, porém, quão poucossão os que preservarão o mesmo teor de moderação quando são apoquentados e irritados? Nem há outro remédio senão que do íntimo de nossas entranhas seja erradicada esta peste extremamente nociva th/j filoneiki,aj kai. filauti,aj [tês philoneikías kai philautías – do gosto de emulação e amor de si próprio], como é ela também erradicada pelo ensino da Escritura. Ora, somos assim por ela instruídos que os dotes que Deus nos tem prodigalizado lembremo-nos que não são bens nossos, mas, ao contrário, graciosas dádivas de Deus, das quais, se alguém se ensoberbecer, está a exibir sua ingratidão. “Quem te torna mais eminente”, indaga Paulo [1Co 4.7], “visto que recebeste todas as coisas; por que te glorias, como se não te fossem dadas?” Isto posto, mercê de constante reconhecimento de nossas deficiências, recorramo-nos à humildade. Assim, nada em nós restará que seja motivo de soberba; aliás, haverá muita razão para prostração. Por outro lado, de tal modo se nos determina que reverenciemos e consideremos todos e quantos dons de Deus que contemplamos nos outros, que também honremos aqueles em quem residem. Ora, de grande improbidade haveria de ser privá-los de honra para a qual o Senhor lhes destinou. Somos, porém, ensinados a ser indulgentes para com seus defeitos, certamente não para que, lisonjeando, os encorajemos, mas para que não vilipendiemos por causa deles àqueles a quem importa encorajar pela benevolência e pela honra. Desse modo acontecerá que, não importa com quem dentre os mortais tenhamos de tratar, não só procedamos moderada e modestamente, mas até afável e afetuosamente, visto que nunca chegarás à verdadeira lhaneza por outra via senão tendo o coração imbuído não apenas de teu demérito, mas também de consideração pelo próximo.

João Calvino