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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A ESCRITURA DEMONSTRA SOBEJAMENTE QUE A VIDA CRISTÃ DEVE SER MODELADA EM CRISTO, PADRÃO ÚNICO PELO QUAL AJUSTAR-SE

E para que melhor nos desperte, a Escritura mostra que Deus, o Pai, como nos reconciliou consigo em seu Cristo [2Co 5.18], assim também nele nos é gravada a imagem [Hb 1.3] à qual quer que sejamos conformados. Assim, pois, os que crêem que somente os filósofos têm tratado como se deve a doutrina moral, que me mostrem um ensino a respeito dos costumes, melhor que o proposto pela Escritura. Os filósofos quando pretendem com todo seu poder de persuasão exortar os homens à virtude, não dizem senão que vivamos de acordo com a natureza. A Escritura, porém, tira sua exortação da fonte verdadeira, quando não só preceitua que nossa vida seja atribuída a Deus, seu Autor, a quem está cingida, mas, depois que ensinou que nos degeneramos da verdadeira origem e condição de nossa criação, também acrescenta que Cristo, por meio de quem retornamos ao favor com Deus, nos foi proposto por modelo, cuja forma exprimamos em nossa vida. O que se requer de mais eficaz do que apenas isto? Com efeito, o que requererias além disto só? Ora, se somos adotados pelo Senhor como filhos com a condição de que nossa vida retrate a Cristo, fundamento de nossa adoção, salvo se nos entregarmos e devotarmos à justiça, além de demonstrar uma enorme deslealdade para com nosso Criador, renegamos também nosso Salvador.128 Além disso, a Escritura toma matéria de exortação de todos os benefícios de Deus que nos rememora e de cada elemento de nossa salvação: visto que Deus nos é exibido por Pai, seríamos acusados de extrema ingratidão, a não ser que, de nossa parte, sejamos exibidos como seus filhos [Ml 1.6; Ef 5.1; 1Jo 3.1]; visto que Cristo nos purificou pela lavagem de seu sangue e nos comunicou esta purificação mediante o batismo, não é consentâneo que nos poluamos de novas imundícies [1Co 6.15; Ef 5.26; Hb 10.10; 1Pe 1.15-19]; visto que nos enxertou em seu corpo, é indispensável que, a nós que somos membros seus, nos guardemos diligentemente para que não nos respinguemos de qualquer mancha ou nódoa [Jo 15.3-8; Ef 5.27]; visto que ele mesmo, que é a nossa Cabeça, subiu ao céu, importa que, renunciado o afeto da terra, aspiremos ao céu de todo nosso coração [Cl 3.1-4]; visto que o Espírito Santo nos dedicou a Deus por templos, deve-se empregar toda diligência para que a glória de Deus resplandeça por nosso intermédio e guardar-nos de não ser profanados com a impureza do pecado [1Co 3.16; 6.19; 2Co 6.16]; visto que não só nossa alma como também nosso corpo foram destinados à celeste incorrupção e à coroa imarcescível, é indispensável que lutem exaustivamente para que se conservem puros e incorruptíveis para o dia do Senhor [Fp 1.10; 1Ts 5.23; 1Pe 5.4]. Afirmo que estes são os mais auspiciosos fundamentos para regular-se bem a vida. É impossível achar-se semelhantes entre os filósofos, que, na exaltação da virtude, nunca vão além da dignidade natural do homem.

João Calvino