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domingo, 9 de setembro de 2018

LEVAR A CRUZ É REMÉDIO EFICAZ PARA CONTER O DESENFREAMENTO DE NOSSA NATUREZA PECAMINOSA

Contudo, nem assim percebemos quão necessária nos é esta obediência, se não ponderamos, ao mesmo tempo, quão grande é a incontinência de nossa carne que busca alijar de sobre si o jugo de Deus, tão logo, ainda que por breve duração, é ela tratada mais branda e indulgentemente. Pois a ele acontece exatamente o mesmo que a corcéis indóceis, os quais, se são deixados ociosos a engordar por alguns dias, em razão de sua crueldade não podem ser dobrados depois, nem reconhecem o cavaleiro a cujo governo antes obedeciam de qualquer maneira. E absolutamente constante é em nós aquilo contra o qual Deus se queixa de haver existido no povo de Israel, ou seja, cevados à saciedade e cobertos de gordura, recalcitremos contra Aquele que nos tem alimentado e nutrido [Dt 32.15]. Certamente que a benevolência de Deus devia aliciar-nos a ponderar e amar sua bondade. No entanto, uma vez que essa é nossa malignidade, que de sua indulgência somos antes perpetuamente corrompidos, mais que necessário é que sejamos contidos por alguma disciplina, para que não sejamos impelidos a tal petulância. Assim, para que não sejamos arrebatados pela altivez, pela desmedida abundância de nossas posses, para que, cumulados de honras, não cedamos à soberba, para que, inflados por outras benesses, ou da alma, ou do corpo, ou da sorte, não nos façamos insolentes, o próprio Senhor, quando acha ser conveniente, se apressa e subjuga e refreia a crueldade de nossa carne com o remédio da cruz, e isto de maneiras variadas à medida que seja salutar a cada um de nós. Ora, não padecemos gravidade, nem necessitamos de cura igualmente difícil. Daí ser necessário que uns sejam provados por um tipo de cruz, outros o sejam por outro. Quando, porém, a uns o Médico celeste trata mais suavemente, a outros os purgue com remédios mais fortes, enquanto quer prover todos de boa saúde, contudo, a ninguém deixa passar incólume e intangível, porque todos à uma sabe que estão doentes.

João Calvino