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domingo, 9 de setembro de 2018

NOSSA NEGAÇÃO PESSOAL EM RELAÇÃO A DEUS POLARIZA-SE EM FAZER SEMPRE E EM TUDO SUA VONTADE E BUSCAR SUA BÊNÇÃO

Voltemos de novo a tratar mais plenamente o aspecto principal da negação de nós mesmos, o qual, segundo dissemos, diz respeito a Deus. E de fato muitas coisas já foram ditas a respeito, o que seria supérfluo repetir. Será bastante considerar até onde nos promove serenidade de espirito e constância. De princípio, pois, em se buscando seja a comodidade, seja a tranqüilidade da presente vida, a Escritura nos convoca a isto: que, abdicando a nós e a todas as nossas coisas em sujeição ao arbítrio do Senhor, a ele tragamos, para serem domados e subjugados, os afetos de nosso coração. A cobiçar riquezas e honras, a ambicionar poder, a acumular tesouros, a ajuntar todas essas sandices que parecem conduzir-nos à magnificência e à pompa, furiosa nos é a concupiscência, infinito o desejo. Por outra lado, da pobreza, da falta de notoriedade, da condição humilde, assombroso é o pavor, assombrosa a ojeriza de que somos espicaçados por todos os modos ante a visão de tê-las que remover! Daqui é possível ver os que são de espírito inquieto, que tentam artifícios, como se esforçam e se afadigam tentando dirigir a vida por seu próprio conselho, seja para alcançarem aquilo que, movido pela ambição ou pela avareza, busca o afeto, ou, por outro lado, para que fujam à pobreza e à humildade de condição. Logo, aos homens piedosos, para que não se enredilhem em tais laços, esta nota deve ser-lhes mantida. Antes de tudo, não provém de outra fonte que desejem, ou esperem, ou cogitem modo de prosperar senão pela bênção do Senhor, e por isso nela se lançam e reclinam segura e confiadamente. Ora, por muito que a carne pareça plenamente bastar a si própria, enquanto às honras e posses contende ou pela própria diligência, ou pelo próprio esforço se empenha a alcançar, ou é ajudada pelo favor dos homens, no entanto é certo que tudo isso nada é, nem haveremos de conseguir alguma coisa, seja por nosso talento, seja por nosso labor, a não ser até onde a um e outro desses dois o Senhor os fará prosperar. Mas, em contrapartida, somente sua bênção acha caminho, mesmo por entre todos os empecilhos, para que tudo nos conduza a um desfecho feliz e ditoso; além disso, que possamos na mais ampla escala, à parte dela, granjear para nós algo de glória e opulência, como vemos diariamente como os grandes ímpios acumulam para si tanto honras quanto posses, quando, no entanto, na realidade não saboreiam sequer a mínima partícula de felicidade aqueles sobre quem a maldição de Deus impede, sem conseguirmos nada sem ela senão o que nos redunde ao mal. De fato, de modo algum se deve almejar o que faz os homens ainda mais miseráveis.

João Calvino