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domingo, 9 de setembro de 2018

O AMOR AO PRÓXIMO NÃO É UM MERO EXERCÍCIO EXTERIOR DE AÇÕES BENÉVOLAS, MAS O SENTIMENTO ÍNTIMO E EMPÁTICO DO CORAÇÃO

Portanto, esta mortificação, afinal, então terá lugar em nós se cumprirmos as injunções da caridade cristã. Entretanto, não as cumpre aquele que unicamente se desincumbe de todos os deveres da caridade, mesmo que a nenhum omita; ao contrário, cumpre-as aquele que o faz de sincero senso de amor. Ora, quanto respeita às obrigações exteriores, pode suceder que alguém de fato cumpra plenamente tudo o que deve; contudo, ao mesmo tempo esteja longe da verdadeira forma de cumprilas. Pois é possível que vejas certas pessoas queiram parecer muito liberais, as quais, no entanto, nada prodigalizam que não vituperem, pela arrogância de semblante ou mesmo com insolência de palavras. E essa calamidade tem chegado a seu ponto máximo nesta época infeliz: que esmolas quase nenhuma, ao menos da maior parte dos homens, não se dão sem vilipêndio, depravação essa que, na verdade, nem entre os pagãosse deveria tolerar. Com efeito, de cristãos se requer algo ainda mais que a mera exibição de alegria no semblante para tornar suas benevolências agradáveis pela afabilidade das palavras. Primeiramente, é indispensável que assumam a pessoa daquele a quem vêem necessitar de sua assistência e se compadeçam de sua sorte, exatamente como se eles mesmos a sentissem e a experimentassem, de modo que, com um senso de misericórdia e humanidade, sejam levados a prestar-lhe ajuda, da mesma forma como gostariam que se fizesse a si próprios. Aquele que, assim animado, decide prestar auxílio a seus irmãos, não só não contaminará suas beneficências de nenhuma arrogância ou exprobração, mas nem mesmo ao irmão a quem presta um beneficio desprezará como carente de meios, nem o terá por servil em obrigação para consigo. Na verdade, não mais do que apostrofarmos a um membro enfermo, em cujo restabelecimento labora o resta do corpo, ou o julgamos especialmente obrigado para com os demais membros, porque a si haja atraído mais de ajuda do que possa retribuir em pagamento. Ora, o mútuo compartilhar de funções entre os membros crê-se não ter nada de gracioso, pelo contrário, ser antes o desencargo daquilo que, devido pela lei da própria natureza, seria monstruoso recusar. Por esta razão, acontecerá também que não se julgue desobrigado aquele que tiver se desincumbido de uma só espécie de encargo, como geralmente costuma ocorrer quando um rico que, depois que contribuiu com algo de seu, a outros delegue outras incumbências que em nada lhe são pertinentes. Mas, cada um cogitará antes consigo mesmo que de tudo quanto é, de tudo quanto tem e quanto vale é devedor para com seu próximo; nem outro fim se deve fixar-lhe para que exerça a beneficência para com ele, senão quando lhe falecem os poderes, os quais, quão largamente se estendem, devem ter seus limites ajustados à regra da caridade.

João Calvino