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domingo, 9 de setembro de 2018

NOSSA NEGAÇÃO PESSOAL IMPLICA EM ACEITAR EM TUDO A VONTADE DIVINA, PELO QUE SUPORTAREMOS COM RESIGNAÇÃO AS PRÓPRIAS ADVERSIDADES

Essa serenidade e resignação não se devem fazer patente às almas só neste ponto; o fato é que se faz necessário que se estenda também a todas as vicissitudes a que a presente vida está sujeita. Portanto, ninguém se nega devidamente, senão aquele que se rende totalmente ao Senhor e que permite que todos os aspectos da vida sejam governados por sua vontade. Aquele que de fato for assim disposto de ânimo, não importa o que lhe sobrevenha, não se considerará desafortunado, nem se queixará com animosidade diante de Deus acerca de sua sorte. Com efeito, daí se fará evidente quão necessária é esta disposição de espírito, a saber, caso se leve em conta a quantos contratempos estamos sujeitos. Múltiplas enfermidades amiúde nos molestam; ora ruge furiosa a peste, ora somos cruelmente acometidos pelas calamidades da guerra; ora a geada, ora a saraiva, tragada a esperança de um ano, induz improdutividade que nos reduz à penúria; esposa, pais, filhos, parentes nos são arrebatados pela morte; nossa casa é consumida em um incêndio. São estas coisas por cuja ocorrência os homens maldizem a própria vida, abominam o dia do próprio nascimento, têm para execração o céu e a luz, improperam contra Deus e, como são eloqüentes para blasfêmias, acusam-no de injustiça e crueldade. Ao fiel, porém, importa até mesmo nestas coisas contemplar a clemência de Deus e sua indulgência verdadeiramente paternal. Portanto, ou se, subtraídos os familiares, veja sua morada reduzida à solidão, certamente nem assim cessará de bendizer ao Senhor, senão que, antes, se volverá a este pensamento: a graça do Senhor, entretanto, que habita minha casa, não a deixará desolada; ou se, crestadas as searas pela neve, ou consumidas pela geada, ou esmagadas pelo granizo, veja a fome pairar iminente, nem ainda então perderá o ânimo, nem nutrirá animosidade em relação a Deus; pelo contrário, permanecerá firme nesta confiança: “Nós, contudo, estamos sob a proteção do Senhor e somos ovelhas apascentadas em suas pastagens” [Sl 79.13]; portanto, ele nos proverá o alimento mesmo na extrema improdutividade; ou, se vier a ser afligido de uma enfermidade, certamente nem assim será quebrantado pela severidade da dor, a tal ponto que se precipite à impaciência, e assim vocifere contra Deus; pelo contrário, atentando para a justiça e brandura na palmatória de Deus, se valerá da resignação. Enfim, não importa o que venha a acontecer, uma vez que sabe que foi ordenado pela mão do Senhor, o receberá de ânimo sereno e agradecido, para que não resista contumazmente à autoridade daquele a cujo poder a si e a tudo o que é seu submeteu de uma vez por todas. Acima de tudo, longe esteja do coração do homem cristão aquela estulta e misérrima consolação dos pagãos que, para que o ânimo firmassem contra as coisas adversas, as imputavam à sorte, contra a qual julgavam ser estulto indignar-se, porque seria ela a;skopoj (áskapos – sem visão; que não enxerga) e caprichosa, a qual, de olhos cegos, feriria a um tempo aos culpados e aos inocentesindiferentemente. Pois esta é, ao contrário, a regra da piedade: a mão de Deus é a árbitra e moderatriz de uma e outra sorte, boa ou má, e ela própria, na verdade, não se arroja com inconsiderado ímpeto, mas de mui ordenada justiça nos administra as coisas boas, assim como também as coisas más.

João Calvino